O Inova Quebrada realizou, entre os dias 15 e 17 de maio, uma visita a Salvador, na Bahia, para conhecer diferentes ecossistemas de impacto social e periférico. Enquanto gestora do Inova Quebrada, quero compartilhar a importância desta jornada formativa.

O roteiro de visita para Salvador contou com uma programação que incluía uma imersão no Instituto Bantu, em Vera Cruz, e também com a execução do primeiro Fórum Inova Quebrada. Este fórum contou com a fala de Eduardo Santos, Diretor Executivo do Instituto Salusvita, sobre ESG em organizações periféricas; Tâmara Regina, coordenadora do IRSEBA, sobre a construção de espaços seguros para crianças em projetos sociais; Rodrigo Coelho, cofundador do Nordeste Eu Sou (NES), em um diálogo sobre o jornalismo periférico e a representatividade da periferia; e Mestre Roxinho, CEO do Instituto Bantu, que compartilhou os seus saberes para a busca de uma sustentabilidade organizacional possível.
A Periferia enquanto Espaço Produtivo
Em um ambiente onde a escassez de recursos (sejam estes materiais ou simbólicos) é, por vezes, a ótica que predomina ao se perceber um território, a aplicação de Tecnologias de Sobrevivência é o fazer possível. Este termo é cunhado por Helena Rizzati (2020), em que se entende que pessoas periféricas, especialmente homens e mulheres negras, que são as mãos essenciais na construção e manutenção da cidade por onde o capital percorre, acumulam conhecimento e técnica, permitindo aplicar e replicar estes conhecimentos onde o acesso é insuficiente.
A periferia enquanto espaço produtivo, reproduz tecnologias de sobrevivência por meio do fazer coletivo, ou seja, da socialização de diferentes técnicas e saberes que resultam em impacto social na escala do Lugar. Lugar, com L maiúsculo para delimitar um território vivo, porque, como diria Milton Santos (1996, p. 63), “o lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo”, e isso pode ser percebido na concretude das relações cotidianas, como no Restaurante Escola Nkuta Bantu, onde foi servido para os participantes do Inova Quebrada uma Moqueca de Caju. Este prato não apareceu apenas enquanto alternativa alimentar para minorias com restrições alimentares, ele é a expressão da extrapolação do saber cultural, convertida de forma criativa e inovadora, que traz impacto econômico: o ecossistema visitado conseguiu reduzir custos com a compra de proteína animal, a partir do uso do que o território tem a oferecer.

As ações que o Instituto Bantu promoveu recentemente com a construção da primeira rua sustentável de Itaparica servem como exemplo da materialização de como a tecnologia da sobrevivência é aplicada. Mas estamos, enquanto mobilizadores de conhecimento periférico, trilhando um caminho que leve lideranças periféricas a se apropriarem e se identificarem enquanto produtoras, executoras e detentoras de tecnologias sociais? É a partir da busca desta compreensão que o Fórum Inova Quebrada se apresenta enquanto um espaço de trocas dos produtos intelectuais criados a partir das margens urbanas.

Fórum Inova Quebrada – Socialização De Saberes e Técnicas
A forma como o modelo tradicional de conhecimento é produzido atualmente criou um distanciamento entre o que é considerado válido e o que não é digno de legitimidade e, neste contexto, essa relação é pautada numa lógica em que o conhecimento do centro é reconhecido, enquanto o da periferia necessita que se fale muito mais alto por muito mais tempo para que possa, em algum momento, ser levado em consideração. Enquanto isso não acontece, há uma série de conhecimentos acumulados que ainda não são validados enquanto conhecimento.
O Fórum Inova Quebrada vem para reunir, dentro de um sistema tradicional como a universidade, a valorização e socialização de saberes, técnicas e vivências que podem ser traduzidos enquanto tecnologias sociais, de sobrevivência e ancestrais. O fórum não propôs a individualidade ou falar sobre um produto sem compartilhar a receita: a proposta foi levar a receita e encontrar formas de reorganizar para que consigamos, em conjunto, produzir novos produtos e novas tecnologias, porque, como diz BITETTI (2019), “As pessoas podem assumir a periferia como um lugar existencial, onde os seus saberes e conhecimentos estão a serviço da vida”.

No centenário de Milton Santos, na UFBA, onde nasce o discutir territorial como conhecemos hoje, realizar a 1ª edição do Inova Quebrada é transgredir, é produzir conhecimento coletivamente ao invés de centralizar a autoria, é chamar para o debate as mais de 30 pessoas que estiveram durante as 4h de evento e fazê-las repetir mais de uma vez o provérbio africano que Mestre Roxinho fez prometer internalizar: “Até que os leões passem a contar as suas histórias, os caçadores sempre serão protagonistas de suas caças”, e nada como a periferia para contar a sua própria história.

Bibliografia
BITETI, Mariane; MORAES, Marcelo José Derzi. Vidas e saberes periféricos como potências transgressoras. Tlalli: Revista de Investigación en Geografía, Ciudad de México, ano 1, n. 2, p. 79-96, jul./dez. 2019.
CASA Hacker e Instituto Phomenta promovem fórum em Salvador para conectar lideranças periféricas e fortalecer redes de transformação social. Observatório do Terceiro Setor, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://observatorio3setor.org.br/casa-hacker-e-instituto-phomenta-promovem-forum-em-salvador-para-conectar-liderancas-perifericas-e-fortalecer-redes-de-transformacao-social/.
INSTITUTO Cultural Bantu mobiliza mutirão para construir a primeira rua ecológica de Itaparica. Afro.TV, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.afro.tv/blog/instituto-cultural-bantu-mobiliza-mutirao-para-construir-a-primeira-rua-ecologica-de-itaparica/.
PERIFERIA na UFBA: fórum em Salvador debate cozinhas solidárias, jornalismo de quebrada e soluções criadas nas comunidades. Correio 24 Horas, Salvador, 2026. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/salvador/periferia-na-ufba-forum-em-salvador-debate-cozinhas-solidarias-jornalismo-de-quebrada-e-solucoes-criadas-nas-comunidades-0526.
RIZZATTI, Helena. Tecnologia da sobrevivência: saberes e novos usos na ocupação Cidade Locomotiva em Ribeirão Preto/SP. PerCursos, Florianópolis, v. 23, n. 51, p. 105-135, jan./abr. 2022.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
*Este artigo utilizou ferramentas de inteligência artificial exclusivamente para adequação das normas ABNT, sem alteração de conteúdo.
