Educadores, facilitadores e lideranças
Para quem conduz grupos: professores, educadores sociais, facilitadores de coletivos e lideranças de bairro. Uma tarde de formação com o kit inteiro e um plano de primeira roda marcado antes de ir embora.
Formação gratuita em cidadania digital para quem educa e transforma comunidades. Iniciativa da Casa Hacker, com formações presenciais em cinco cidades: Sumaré, Hortolândia, Nova Odessa, Campinas e Americana.

Sumaré · Hortolândia · Nova Odessa · Campinas · Americana
O Internet Segura é a iniciativa da Casa Hacker que forma quem já cuida de gente para cuidar também do que acontece na tela: lideranças sociais, educadores, professores, facilitadores e famílias que querem proteger suas comunidades e territórios. A formação é presencial e gratuita, e cada pessoa sai com o Kit do Educador para multiplicar.
A base metodológica vem de uma parceria de anos com a Tactical Tech, de Berlim, cujo Data Detox Kit a Casa Hacker traduz e adapta ao Brasil desde 2018, e da cartilha «Decifrando a Privacidade Digital», escrita com a Proteka em 2021. Desde então, mais de setecentas pessoas passaram pelas formações, de São Paulo a Ubatuba, incluindo conselheiros tutelares na Escola de Conselhos da Unicamp e educadores de 23 organizações da região metropolitana de Campinas.
Proibir não educa. Educar protege. É a frase que resume a postura do programa: a internet não é um lugar perigoso, é a maior praça pública que já existiu, e quem cuida de gente tem o dever de ensinar a atravessá-la.
O que preocupa este território? Quem está mais exposto? Quem já cuida disso?
Uma roda com quem educa e quem cuida, para nomear os riscos e as dúvidas reais.
Presencial, gratuita, com dinâmicas e o celular na mão. Ninguém sai sem mudar uma configuração.
Cada pessoa leva esta cartilha, a apresentação e os planos de atividade.
Quem foi formado forma. A Casa Hacker fica de retaguarda em falae@casahacker.org.
Para quem conduz grupos: professores, educadores sociais, facilitadores de coletivos e lideranças de bairro. Uma tarde de formação com o kit inteiro e um plano de primeira roda marcado antes de ir embora.
Para quem recebe o caso quando algo já deu errado. Foco em reconhecer violência on-line contra crianças e adolescentes, preservar provas e encaminhar. Feita com a Escola de Conselhos da Unicamp.
Rodas abertas no centro comunitário, na igreja, na associação. Golpes, senhas, tempo de tela e o combinado da casa, com o celular na mão e sem ninguém precisar mostrar a própria tela.
Escolas, organizações sociais, coletivos, conselhos, secretarias e igrejas podem receber uma formação presencial do Internet Segura. Escreva contando quem é o público, quantas pessoas e onde fica. A gente responde com uma proposta de data.
falae@casahacker.org
O conteúdo das formações, inteiro, para quem vai ensinar. Doze capítulos, oito planos de atividade, uma apresentação de slides e os modelos de divulgação. Leia na ordem ou vá direto ao que o seu território pede.
licença cc by-sa 4.0 · copie, adapte e multiplique, citando a casa hacker
A internet não é um lugar perigoso. É a maior praça pública que já existiu, e quem cuida de gente tem o dever de ensinar a atravessá-la.
Nove em cada dez casas brasileiras têm internet. Nelas, a criança faz a tarefa pelo celular, a avó recebe o benefício pelo aplicativo, o jovem procura o primeiro emprego num site e a mãe descobre pelo grupo da rua que a escola fechou mais cedo. A praça, o balcão, o mural e o correio foram parar no mesmo aparelho.
Ninguém ensinou ninguém a viver ali. A pesquisa TIC Kids Online, do Cetic.br, mostra que mais de dois terços das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já usam redes sociais, e que três em cada quatro usam a internet para trabalhos escolares. Quase metade admite que não sabe dizer se uma informação encontrada na rede é verdadeira. Os adultos que cuidam dessas crianças não estão em situação muito melhor: aprenderam sozinhos, no susto, um golpe de cada vez.
Vale dizer isso logo, porque é a primeira coisa que a conversa sobre segurança costuma esquecer. A internet é fantástica. Ela encurtou a fila do posto, colocou a biblioteca do mundo no bolso e deu voz a quem nunca teve microfone. A Casa Hacker existe para que a periferia mande nessa tecnologia, e não o contrário.
Segurança digital não é uma lista de medos. É o conjunto de hábitos que deixa a pessoa usar a rede com autonomia: saber o que é seu, saber o que entrega em troca, reconhecer uma isca, checar antes de compartilhar, e saber a quem recorrer quando algo dá errado. Quem sabe isso navega mais, não menos.
Medo trava. Repertório liberta.
A lei já respondeu. O Marco Civil da Internet, no artigo 26, diz que o dever do Estado com a educação inclui a capacitação para o uso seguro, consciente e responsável da internet, como ferramenta de cidadania. O Estatuto da Criança e do Adolescente vale dentro e fora da rede. A Lei 13.185/2015 obriga a prevenir o bullying, inclusive o que acontece pela tela. E a Lei 15.211/2025, o ECA Digital, passou a exigir das plataformas verificação de idade e supervisão de responsáveis.
Mas a lei não chega sozinha ao território. Quem chega é a professora, a liderança do bairro, o educador social, a facilitadora do coletivo, a conselheira tutelar. É gente que já tem a confiança da comunidade e que vê o problema antes de ele virar caso de polícia: a menina que parou de ir ao encontro, o menino que caiu num golpe com o dinheiro da mãe, o grupo de WhatsApp que espalhou uma mentira sobre um vizinho.
Este kit foi escrito para essa gente. Não é preciso ser técnico. É preciso saber conversar.
Papel sem nome é papel de ninguém. Este papel é de quem educa.
Tirar o celular, bloquear o aplicativo e fechar a rede resolve por uma tarde. No dia seguinte a criança está no celular do colega, e agora sem ninguém para perguntar. Controle rígido sem conversa ensina a burlar, não a se cuidar.
O caminho que a Casa Hacker aprendeu em mais de setecentas pessoas formadas é outro: primeiro escutar o que preocupa aquele território, depois abrir uma roda de diálogo com quem educa e quem cuida, então formar presencialmente e, no fim, deixar nas mãos de cada pessoa um material para continuar. Este kit é esse material.
Os capítulos seguem uma ordem, mas não precisam ser lidos em sequência. Os três primeiros falam do que é do adulto: privacidade, senhas e golpes. Vale começar por eles, porque ninguém ensina o que não pratica. Os dois seguintes, desinformação e bem-estar, são os que mais rendem em roda de conversa. Os capítulos sobre cyberbullying, violência e o que fazer são para consultar quando o problema aparece, e para ler antes, para não ser pego de surpresa. No fim ficam a lei numa página, os planos de atividade por idade e os recursos.
Cada capítulo fecha com dois blocos. Para levar para a comunidade traz dinâmicas prontas, testadas nas formações da casa. Para se aprofundar traz poucos links, todos conferidos. Se um deles quebrar, avise em falae@casahacker.org.
Este material é da Casa Hacker e está sob licença Creative Commons BY-SA 4.0: pode copiar, imprimir, adaptar e redistribuir, desde que cite a origem e mantenha a mesma licença. Foi feito para ser multiplicado.
Público, privado e íntimo. A pegada que cada clique deixa. E a economia que faz o «grátis» valer tanto dinheiro.
Privacidade é um direito. Está na Constituição, no Marco Civil e na Lei Geral de Proteção de Dados. Também é uma cultura: cada família, cada território e cada geração tem uma ideia diferente do que se conta e do que se guarda. Segurança é outra coisa. Segurança é o meio, o conjunto de ferramentas e hábitos que garante o direito. Confundir os dois faz a conversa começar pela senha e nunca chegar na pergunta que importa: o que é meu, e o que eu quero que os outros saibam?
Nas formações da Casa Hacker a gente usa três caixas. Público é o que não traz risco se todo mundo souber: o nome, o time, a cidade. Privado é o que precisa de cuidado e de escolha: o endereço, a rotina, a escola das crianças, a foto do almoço de domingo com a placa do carro atrás. Íntimo é o que deve ficar protegido sempre: o corpo, a saúde, a senha, o segredo confiado.
A mesma informação muda de caixa conforme a pessoa e o contexto. O horário em que você sai de casa é público para o vizinho e privado para quem você não conhece. Uma foto de biquíni é da caixa que a dona dela decidir, e de mais ninguém. Ensinar a escolher a caixa é mais útil do que ensinar uma lista de proibições.
Privacidade não é esconder. É escolher.
Toda atividade na rede deixa histórico. O que você busca, quanto tempo para num vídeo, o que curte às duas da manhã, por onde o celular andou. Esse rastro é a sua pegada digital, e ela conta uma história sobre você mais completa do que a que você contaria.
Para o adulto, isso vira reputação digital: a foto de dez anos atrás que aparece na entrevista de emprego, o comentário raivoso que o processo seletivo encontrou. Para a criança, é ainda mais delicado, porque ela não escolheu nada. As fotos que os pais postam desde a maternidade, o boletim comemorado no grupo da família, o vídeo engraçado do birra no mercado. A Sociedade Brasileira de Pediatria já chamou a exposição excessiva de crianças pelos próprios pais de forma de abuso. Não é exagero. Aquela criança vai crescer e encontrar tudo isso, e pessoas mal-intencionadas podem encontrar antes.
Vale para quem educa também. Publicar foto de aluno em passeio, no recreio ou na festa, sem autorização expressa dos responsáveis, fere o direito à imagem daquela criança. É comum, é bem-intencionado e é errado.
O que você posta hoje é o que alguém vai achar amanhã. Poste para o amanhã.
Um levantamento simples, feito em todas as turmas: quantos aplicativos você tem no celular? A maioria chuta trinta. A conta real passa de sessenta. E quantos deles você pagou? Nenhum.
Se o aplicativo é grátis, ele lucra de outro jeito, e o jeito é você. Cada gesto na tela vira um dado. Os dados de milhões de pessoas viram um perfil detalhado do que cada uma gosta, teme, compra e pretende. Esse perfil é o que se vende: para quem quer vender um tênis, e para quem quer vender uma ideia. Na televisão aberta, o comercial pagava a novela. Hoje, seus dados pagam o aplicativo.
O nome disso é escuta digital. As redes sociais são o melhor lugar do mundo para escutar, porque ali a gente só interage com o que gosta. Cada curtida ensina a máquina. Depois de um tempo ela sabe indicar o produto, o vídeo e o curso que você ainda não sabia que queria. Não é mágica. É o seu histórico devolvido em forma de anúncio.
E não é só anúncio. Campanhas políticas usam os mesmos dados para decidir o que cada pessoa vai ver. O Data Detox Kit resume: quanto mais uma campanha sabe sobre você, mais ela consegue te influenciar, seja para doar, para mudar o voto ou para ficar em casa no dia da eleição. Foi assim no caso Cambridge Analytica, em que um teste de personalidade no Facebook virou ferramenta de propaganda dirigida. Pensando como coletivo, isso é mais sério do que um tênis a mais no carrinho.
Privacidade não se resolve de uma vez, mas se melhora em dez minutos:
Cada item desses é um gesto de dez segundos. Numa formação, faça a turma fazer um deles ali mesmo, no celular. Uma configuração mudada vale mais que uma hora de aviso.
Dado que você não entrega, ninguém vaza.
O capítulo mais prático de todos. Uma senha por porta, uma segunda chave, e o hábito de conferir se a sua já vazou.
Se a privacidade é escolher o que sai, a segurança das contas é garantir que ninguém entre. E a porta de tudo é o e-mail: quem entra nele pede «esqueci minha senha» em cada outro serviço e troca tudo em cinco minutos. Depois vem o WhatsApp, que hoje é a identidade da pessoa perante a família inteira, e o banco.
O que tem atrás dessas portas é o que os golpistas querem: credenciais, número de cartão, CPF, endereço, telefone, e-mail. Com isso se abre conta, se pede empréstimo, se pede dinheiro para os parentes fingindo ser você. Não é problema de gente descuidada. É problema de todo mundo que tem conta em algum lugar, ou seja, de todo mundo.
Nas formações, a Casa Hacker faz um concurso: quem monta a pior senha do mundo ganha. Cada pessoa tem quinze pontos. Nome próprio vale quatro. CPF ou RG, dois. Nome do pet, seis. Data de nascimento, oito. Quem gasta os quinze pontos vence. A sala ri, e depois alguém pergunta o que todas essas informações têm em comum. Todas estão no perfil público de quase todo mundo.
Uma senha fraca não é a que tem poucas letras. É a que pode ser adivinhada por quem te conhece, ou por um programa que testa as cem mil senhas mais comuns do país em menos de um minuto. «123456», «senha», o nome do time, o nome do filho seguido do ano. Todas caem no primeiro segundo.
Comprida, única e inesperada. É isso.
Trocar de senha de tempos em tempos só faz sentido quando há motivo: um vazamento, um aparelho perdido, alguém que teve acesso. Trocar por trocar leva a pessoa a criar variações previsíveis, e isso é pior.
Uma senha, uma porta. Vazou uma, vazaram todas.
A verificação em duas etapas, ou 2FA, pede um segundo código além da senha: um número que chega no celular ou que um aplicativo autenticador gera. Com ela ativada, quem descobre a sua senha ainda fica do lado de fora.
Ative no e-mail, no banco, nas redes e, antes de tudo, no WhatsApp. O golpe do WhatsApp clonado é o mais comum do Brasil, e a verificação em duas etapas do aplicativo o impede quase por completo. Leva dois minutos: Configurações, Conta, Confirmação em duas etapas. Numa formação, faça a turma fazer isso ali mesmo.
Prefira o aplicativo autenticador ao código por SMS, quando o serviço oferecer. E guarde os códigos de recuperação em papel, em casa. Sem eles, perder o celular pode significar perder a conta.
Cuide também das opções de recuperação. O e-mail e o telefone «de recuperação» que você cadastrou anos atrás ainda são seus? Se não, quem os tem hoje pode entrar na sua conta.
Quase certamente sim, e não é vergonha. Grandes serviços vazam listas de e-mails e senhas o tempo todo. O site haveibeenpwned.com diz em quais vazamentos o seu e-mail apareceu. Não guarda o que você digita e é mantido por um pesquisador de segurança respeitado.
Se apareceu, troque a senha daquele serviço e de qualquer outro em que você tenha usado a mesma. É por isso que «única» é a regra que mais importa.
Ninguém lembra sessenta senhas diferentes. Não precisa. Um gerenciador de senhas é um cofre com uma única senha mestra forte; ele cria e lembra as outras por você, e preenche na hora de entrar. O Bitwarden é gratuito, de código aberto e em português, para celular e computador. O KeePassXC guarda o cofre no seu próprio aparelho, sem internet.
Para quem tem mais idade ou pouca intimidade com aplicativo, o caderninho guardado na gaveta de casa é um gerenciador de senhas honesto. É muito mais seguro do que a mesma senha em tudo, que é a alternativa real. O ladrão de senha está do outro lado do mundo, não na sua gaveta.
Segurança não é desconfiar de tudo. É fechar a porta quando sai.
É mais fácil enganar uma pessoa desatenta do que invadir um sistema. Este capítulo ensina a reconhecer a isca antes de morder.
Ninguém invade um banco. É difícil, é caro, e as equipes de segurança são grandes. É muito mais fácil ligar para uma pessoa dizendo que é do banco e pedir que ela confirme a senha. O nome disso é engenharia social: manipular gente, não máquina, para conseguir informação ou dinheiro. A engenharia social mira três coisas que todo ser humano tem: pressa, medo e boa vontade.
Por isso ninguém cai em golpe por burrice. Cai por confiança, num dia corrido. Dizer isso no começo da conversa tira a vergonha da sala, e é a vergonha que faz a vítima esconder o golpe em vez de contar, o que só ajuda o golpista.
Mude o canal, mude a história, a estrutura é a mesma. Aprenda a estrutura e você reconhece o golpe que ainda não inventaram.
O golpe do «vírus que filmou você» é um exemplo perfeito: uma mensagem afirma ter gravado a pessoa em site adulto e ameaça mandar para os contatos se não receber pagamento. Não existe vídeo nenhum. Existe medo, e o medo paga.
Phishing vem de «pescar»: um e-mail ou um site falso, parecido com o verdadeiro, pescando seus dados. Quando chega por SMS, chama-se smishing. Por ligação, vishing: o «gerente» que pede para confirmar a transação, o «suporte» que precisa acessar seu computador. Quando o golpista se passa pelo diretor da empresa para enganar um funcionário, whaling. Não é preciso decorar os nomes. É preciso reconhecer que a isca é a mesma em qualquer canal.
É o mais comum do Brasil e merece parágrafo próprio. Tem três versões:
banco-seguro@gmail.com» não é o banco.Um site falso copia o visual do verdadeiro e muda uma letra no endereço. Antes de digitar senha ou cartão, leia o endereço na barra do navegador, letra a letra. Prefira chegar ao site digitando o endereço você mesmo, ou pelo aplicativo oficial, em vez de clicar num link recebido. Um cadeado ao lado do endereço significa que a conexão é criptografada, não que o site é honesto: golpistas também têm cadeado. E dê atenção aos alertas do navegador sobre site inseguro. Eles existem para isso.
A voz do filho pedindo dinheiro numa ligação, o vídeo do prefeito anunciando um benefício falso, a apresentadora de TV vendendo remédio milagroso. Com inteligência artificial, imagem e voz de qualquer pessoa pública podem ser imitadas em minutos. A defesa é a mesma de sempre: confirmar por outro canal, desconfiar da urgência e nunca decidir dinheiro no calor da hora.
Na dúvida, não clique. Digite.
Do conceito ao método. Um checklist de cinco perguntas, as agências que checam por você, e o efeito bola de neve de um único compartilhamento.
Pode ser difícil separar fato de ficção quando um vídeo, uma imagem ou um texto aparecem na tela. Testes de personalidade que traçam o seu perfil, manchetes chocantes, fotos alteradas que convencem de uma realidade que não existe. O que se vê nem sempre é o que parece, e o problema não é de quem tem pouco estudo. Pesquisadores, médicos e jornalistas também compartilham coisa falsa. A diferença é o hábito de checar.
Nas comunidades onde a Casa Hacker trabalha, a desinformação não é abstração. É o remédio milagroso vendido no grupo do bairro, o boato sobre o vizinho, a mentira sobre a vacina, o benefício do governo que não existe e o pix que «garante a vaga». Ela custa dinheiro, saúde e convivência.
Informação falsa ou distorcida, produzida ou repassada com o propósito de confundir ou induzir ao erro. Não é só a «fake news» fabricada. Boa parte do que circula é meio verdade: a foto real em contexto falso, o título que não bate com o texto, a sátira levada a sério, a declaração cortada. A pesquisadora Claire Wardle organizou sete tipos, e vale conhecê-los porque cada um pede uma checagem diferente:
O que todos têm em comum é o motor. Desinformação circula porque provoca emoção, não porque é verdade. Quanto mais raiva, medo ou indignação um conteúdo desperta, mais rápido ele anda.
Se te deu vontade de compartilhar na hora, esse é o sinal para esperar.
A cartilha de 2021 da Casa Hacker organizou a verificação em cinco blocos. Continua sendo o melhor material para imprimir e colar na parede.
Nenhuma dessas perguntas exige ser jornalista. Exige um minuto.
O Brasil tem agências de checagem de fatos sérias e gratuitas: Comprova, Aos Fatos, Agência Lupa, Estadão Verifica, Agência Pública, E-farsas. Antes de compartilhar, pesquise o título do conteúdo entre aspas no buscador. Se já foi desmentido, aparece. Algumas agências recebem conteúdo pelo WhatsApp para checar.
Para imagens, existe a busca reversa: sites como o TinEye ou o Google Imagens mostram onde uma foto já apareceu antes. A foto da «enchente de ontem» costuma ser de outro país, de outro ano.
O trabalho de checagem é enorme e as equipes são pequenas. Elas priorizam o que tem mais chance de viralizar ou de causar dano. Ou seja: nem tudo será checado por elas. O resto é com a gente.
Caça-clique é a manchete sensacionalista, desonesta ou inventada, feita para provocar o clique. Quanto mais atenção um conteúdo recebe, mais dinheiro ele gera em anúncios, então o incentivo é mentir bonito. Deepfake é vídeo, áudio ou imagem alterada por inteligência artificial para pôr palavras na boca de alguém ou trocar o rosto de uma pessoa. Hoje qualquer pessoa faz um em minutos.
Contra os dois, o mesmo remédio: visite a fonte original, cheque o autor, veja o tipo de conteúdo (opinião? anúncio? notícia?), cruze com outras fontes antes de considerar verdadeiro, e só depois compartilhe.
E cuidado com os testes de personalidade: «qual personagem você seria?» pode ser um questionário cuidadosamente montado para colher dados psicométricos. Foi exatamente esse tipo de teste que colocou o Facebook e a Cambridge Analytica em apuros por traçar perfis e mirar eleitores sem consentimento.
Os aplicativos mostram o que você já gosta. Isso é curadoria algorítmica: a máquina recomenda com base nas suas curtidas, visualizações e compartilhamentos. Com o tempo, você só vê quem concorda com você, e passa a achar que o mundo inteiro pensa igual. Aí qualquer mentira que confirme o que você já acredita entra sem resistência.
A saída é escolher, de propósito, fontes de fora do seu círculo. Assine serviços que reúnem notícias de perspectivas diversas; o Global Voices em português é um bom começo. Siga gente de quem você discorda com respeito. Bolha não se estoura sozinha.
Se uma pessoa compartilha um conteúdo com dez amigos e cada um repassa para outros dez, em dois passos ele chegou a cem pessoas. Em segundos. E não há como puxar de volta nem corrigir. Cada pessoa que compartilha é, naquele instante, um editor de jornal com o próprio nome na capa. Vale perguntar antes: eu assinaria isso?
Quem compartilha, publica. E quem publica, responde.
Cada cor, som e vibração foi desenhado por equipes inteiras para te fazer voltar. Saber disso é o primeiro passo para decidir quando voltar.
Segundo estudos, a pessoa média olha o celular mais de 150 vezes por dia. Se fizéssemos qualquer outra coisa com essa frequência, procuraríamos um médico. Estamos escolhendo olhar tanto? Ou alguém escolheu por nós?
O celular é divertido e útil. Também é uma ferramenta de sedução poderosa. Cada recurso, cor e som foi otimizado por equipes de designers e psicólogos para nos manter conectados e querendo mais. Não é teoria da conspiração; é o modelo de negócio. O aplicativo é grátis e vive de anúncio. Quanto mais tempo você fica, mais anúncio vê. Então tudo nele é desenhado para você ficar.
A rolagem infinita não tem fim porque um fim seria um convite para sair. A bolinha vermelha da notificação usa a cor do perigo porque perigo a gente não ignora. A curtida e o «visto» funcionam como o caça-níquel: uma recompensa incerta, às vezes vem, às vezes não, e é justamente a incerteza que faz voltar. O vídeo seguinte começa sozinho antes que você decida. O nome disso é design persuasivo, e há gente muito bem paga trabalhando nele agora.
Não é falta de disciplina. É desenho contra você.
Nas formações a Casa Hacker escreve essa pergunta num cartaz e deixa a roda responder. A resposta boa é: não. Gostar não é culpa. O aplicativo foi feito para ser gostável por gente que entende de cérebro humano. Sentir-se culpado só produz mais um ciclo de uso: a pessoa se pune, se distrai, volta ao celular.
A pergunta que liberta é outra: quem lucra com o meu tempo, e o que eu quero fazer com ele? Quando a pessoa entende que o tempo dela é o produto, a relação muda. Não porque ela passa a odiar o celular, mas porque passa a usá-lo em vez de ser usada.
Fale disso sem julgamento, porque todo mundo na roda vai se reconhecer em pelo menos um item. Você inclusive.
Para crianças e adolescentes, o assunto tem uma camada a mais. O cérebro em desenvolvimento é mais sensível à recompensa incerta, e a comparação social nas redes pesa mais. Por isso o ECA Digital, a Lei 15.211/2025, passou a proibir que plataformas usem o perfil de menores para publicidade dirigida e a exigir mecanismos de supervisão. A lei reconhece o que este capítulo diz: não é só uma questão de força de vontade individual.
Bem-estar digital não é jogar o celular fora. É recuperar a escolha. Cada item abaixo leva menos de um minuto:
Numa formação, peça que cada pessoa escolha um item e faça ali mesmo. Desligar a notificação de um aplicativo é o mais fácil, e o mais sentido. Na semana seguinte, pergunte quem sentiu falta.
Ter uma relação saudável com as tecnologias não é privilégio de quem tem tempo para retiros de desintoxicação. É um direito de toda pessoa e de todo território, e por isso ele é tratado aqui como parte da segurança digital, e não como conselho de autoajuda. Quem educa pode fazer duas coisas: dar às pessoas o vocabulário para nomear o que está acontecendo com elas, e mostrar que as configurações existem.
Use o celular. Não deixe o celular te usar.
A diferença entre brincadeira e violência, os sinais que aparecem antes da denúncia, e o que a lei exige de quem educa.
Bullying vem de «bully», valentão. É uma relação de intimidação, controle e humilhação repetida de uma pessoa ou grupo sobre alguém, para produzir a ideia de que há algo errado ou inferior com a vítima. Acontece no pátio, no ônibus, no campinho. Cyberbullying é a mesma coisa pela tela, e a tela piora tudo: não há hora de ir para casa, a humilhação vira mil em minutos, fica gravada para sempre e quem agride não vê o rosto de quem fere.
O Brasil é o quarto país do mundo em nativos digitais. Para crianças e adolescentes, a internet é o principal espaço de convivência. É lá que fazem amizade, brigam, namoram e sofrem. Quem educa precisa estar lá também, pelo menos com a atenção.
A pergunta mais difícil, e a mais importante. Criança implica, adolescente zoa, e nem toda zoação é violência. Três critérios separam as coisas, e valem tanto para o bullying quanto para o cyberbullying:
Os três juntos são bullying. Uma montagem engraçada postada uma vez e apagada quando a pessoa pediu não é. Um grupo criado para falar mal de alguém, com prints de conversa privada, é. O apelido que a pessoa aceita é convivência; o apelido que ela pediu para parar e continuou é violência. Ensinar essa distinção aos próprios adolescentes é metade do trabalho, porque eles conseguem se autorregular quando têm as palavras.
Brincadeira acaba quando o outro pede. Se continua, mudou de nome.
A vítima raramente conta. Tem vergonha, medo de piorar, ou acha que é culpa dela. Quem educa costuma ver os sinais antes da família, porque vê a pessoa no grupo:
Nenhum sinal isolado prova nada. Vários juntos pedem uma conversa em privado, sem cobrança: «percebi que você anda diferente; estou aqui».
A Lei 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. Ela define bullying e cyberbullying e diz que prevenir é dever legal, não favor. Estabelece que as instituições devem capacitar a equipe, promover discussão e campanhas de conscientização, dar assistência psicológica, social e jurídica a vítimas e agressores, e registrar os casos. Escolas precisam produzir relatórios bimestrais. A lei fala em escola, mas o espírito vale para qualquer espaço que reúna crianças e adolescentes: projeto social, igreja, coletivo, quadra.
Sobre responsabilidade: a partir dos 18 anos há responsabilidade penal. Entre 12 e 18 anos, a conduta não é crime, mas ato infracional, sujeito às medidas do ECA, da advertência à internação. E pelo Código Civil, artigo 932, os pais respondem civilmente pelos filhos menores: quem cria um perfil falso para atacar um colega pode gerar uma indenização que a família vai pagar. A internet não é terra sem lei, e os rastros digitais permitem que polícia, Ministério Público e Justiça cheguem aos responsáveis.
A perspectiva da Casa Hacker, e da cartilha de 2021 que deu origem a este kit, é priorizar a mediação e as competências socioemocionais. Muito antes da denúncia, e mesmo durante um processo, o papel pedagógico é prevenir e mediar para que os danos sejam os menores possíveis.
Na prática:
Casos que envolvem risco à vida, ameaça ou qualquer tipo de agressão física pedem comunicação imediata à autoridade policial, ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público, conforme o caso. O capítulo O que fazer traz o passo a passo para preservar provas e denunciar.
A maioria das pessoas numa situação de cyberbullying não é vítima nem agressora. É audiência. E a audiência é a força do bullying: sem quem ri, quem repassa e quem finge que não viu, ele não funciona. Ensinar aos jovens o que fazer como espectador é o que eles conseguem fazer sozinhos, sem adulto: não repassar, sair do grupo, denunciar na plataforma, mandar uma mensagem em privado para a vítima, avisar alguém de confiança.
Quem vê e cala, participa. Quem vê e age, encerra.
Nudez sem consentimento é crime, não pornografia. A vítima nunca é culpada. E quem educa tem o dever de comunicar.
O Brasil é o quarto maior país em nativos digitais. Para adolescentes, a internet é o principal espaço público de convivência, e é ali que vivem as primeiras experiências, inclusive as afetivas e sexuais. Fingir que não é assim não protege ninguém. O que protege é o adulto que sabe do que está falando e não julga antes de ouvir.
Vale dizer, antes de tudo: trocar imagens íntimas pode ser parte legítima do reconhecimento do próprio corpo, da experimentação do prazer, da construção de confiança entre duas pessoas. Não é o assunto deste capítulo. O assunto é o que acontece quando essa confiança é quebrada, e o que acontece quando um adulto se aproveita de uma criança.
O caso mais frequente é o vazamento de conteúdo íntimo depois do fim de um relacionamento. Uma das partes, quase sempre o homem ou o menino, torna públicas imagens recebidas numa relação de confiança. Popularmente chama-se «pornografia de vingança», e o nome esconde o essencial: publicar conteúdo íntimo sem autorização é crime, não um gênero de pornografia, ainda que o agressor use sites pornográficos ou simule oferta de serviços sexuais em nome da vítima. A Lei 13.718/2018 tipificou a divulgação de cena de sexo ou nudez sem consentimento e a importunação sexual.
Quando envolve menor de 18 anos, o ato é ainda mais grave: trata-se de produção e divulgação de imagens de um crime contra a dignidade sexual de criança ou adolescente, uma forma de violência sexual. Na pornografia supõe-se participação voluntária entre adultos. Onde há criança ou adolescente, há abuso ou exploração, logo não são imagens de pornografia; são imagens de crime.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, nos artigos 240 e 241, prevê pena de quatro a oito anos para quem produz essas imagens, três a seis para quem as divulga, e um a três para quem as armazena, seja num pendrive, num computador ou no celular. Assédio e aliciamento on-line podem chegar a três anos. Isso tem uma consequência prática que muita gente ignora: receber e guardar a imagem íntima de um adolescente, mesmo «para servir de prova», também é crime. Voltaremos a isso no próximo capítulo.
Nenhuma circunstância torna a vítima responsável pela exposição. Não importa se mandou a foto, se confiou na pessoa errada, se estava bebendo, se «devia saber». A pessoa que compartilhou sem consentimento é a única culpada. Essa frase precisa ser dita em voz alta, porque a culpabilização é o que faz a vítima se calar, e o silêncio é o que permite que a exposição continue.
O agressor é o culpado. Sempre.
Nomear ajuda a reconhecer. Os principais riscos a que crianças e adolescentes estão expostos on-line, na lista que a Casa Hacker usa com parceiros:
A maioria começa fora dos muros de qualquer instituição, e chega a quem educa pela mudança de comportamento da criança ou pelo relato de um colega.
Profissionais da educação e da saúde têm o dever legal de comunicar todos os casos de violência ou de dano contra crianças e adolescentes, dentro ou fora da internet. Comunicar não é «denunciar o adolescente». É proteger. O Estatuto é claro: é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, colocando-os a salvo de tratamento desumano, violento, vexatório ou constrangedor.
Na prática, quando um caso chega:
Às vezes, quando o caso envolve dois adolescentes e não há adulto abusador, a mediação e a resolução pedagógica podem ser mais eficazes que a judicialização. Essa avaliação cabe à equipe junto com as famílias, nunca à vítima sozinha.
O Marco Civil da Internet, no artigo 21, diz que em casos de nudez ou sexo sem autorização a própria vítima (ou seu representante) pode pedir a remoção diretamente à plataforma, sem precisar de decisão judicial. Se a plataforma, notificada, não retirar o conteúdo com diligência, passa a responder por ele. É o caminho mais rápido para interromper a exposição. Antes de pedir a remoção, registre o endereço e as evidências, como explica o próximo capítulo.
Ainda que em menor escala, há muitos casos graves envolvendo meninos e homens. Independentemente do gênero ou da orientação sexual de quem foi exposto, não se pode permitir a banalização dessa violência contra a intimidade e o corpo. Se receber conteúdo desse tipo: não compartilhe, denuncie o link na plataforma e apague do seu aparelho. Não comente, não pergunte, não ria. Se conhece a pessoa, fale com ela em privado e ofereça ajuda concreta. A circulação depende de cada pessoa que repassa.
Parar a corrente é a única coisa que todo mundo pode fazer. E é a que mais importa.
A sequência para consultar na hora do problema. Guardar provas, registrar, bloquear, denunciar, e a quem recorrer em cada caso.
Qualquer pessoa que tenha sofrido cyberbullying, golpe ou violência sexual na internet pode denunciar e pedir ajuda. O primeiro conselho é o mais difícil de seguir: não responda, não revide, não faça justiça com as próprias mãos. Isso só aumenta a violência e pode transformar a vítima em ré. Vítimas menores de 18 anos precisam ser orientadas a pedir ajuda a um responsável ou a um adulto de confiança, e é esse adulto que conduz os passos abaixo.
Este capítulo é para ser consultado na hora do problema. Imprima, cole na parede, salve no celular.
Não apague nada. Nem o conteúdo, nem as conversas, por mais que doa.
Esses são os materiais que as autoridades terão para encaminhar a denúncia.
Uma exceção que quase ninguém sabe, e que muda tudo. Quando o conteúdo é sexual e envolve menor de 18 anos, apenas a própria vítima ou seus responsáveis legais devem ter esses registros. A posse de imagem íntima de criança ou adolescente é crime de armazenamento, mesmo que a intenção seja «guardar como prova». O educador, por mais bem-intencionado, não pode salvar nem encaminhar esse conteúdo sem autorização. O que ele faz é orientar a família a guardar e acompanhar.
Com as provas em mãos, um cartório pode lavrar uma ata notarial: o tabelião confere os endereços e os conteúdos e registra que aquela ofensa, intimidação ou abuso existiu, com aquele teor, naquela data. É a fé pública do cartório dando peso às provas, que valem mais que um print solto quando o caso chega à Justiça. Tem custo; famílias sem recurso podem buscar orientação na Defensoria Pública sobre alternativas.
Passo simples e urgente: a vítima precisa parar de receber o conteúdo abusivo. Bloquear em todas as redes e aplicativos, e sair dos grupos onde a agressão circula.
Toda plataforma tem mecanismo de denúncia, e cyberbullying, ameaça e nudez sem consentimento violam as regras de todas elas. Denuncie a publicação e peça a remoção. É gratuito, imediato e muitas vezes basta para interromper a circulação.
O Marco Civil da Internet, no artigo 21, dá à vítima de exposição íntima o direito de exigir a remoção diretamente da plataforma, sem juiz; a plataforma notificada que não agir passa a responder. Se a denúncia pelo botão não resolver, um advogado pode enviar uma notificação extrajudicial para que a empresa tome conhecimento formal e providências.
A depender da gravidade, registre o B.O. Criança e adolescente podem fazê-lo, acompanhados, e qualquer pessoa próxima também. Se houver na cidade, procure a delegacia especializada em crimes cibernéticos ou a delegacia da mulher; se não, qualquer delegacia recebe. Muitos estados têm delegacia eletrônica. Leve as provas.
O Google oferece um formulário para pedir que um conteúdo deixe de aparecer nos resultados de busca associado ao nome da vítima. Isso não remove o conteúdo da página onde está hospedado, mas impede que quem procura o nome da pessoa o encontre. O formulário pode ser preenchido pelos responsáveis legais, quando a vítima é menor, ou por advogados. O Google não responde pelo conteúdo dos sites, só pela busca, então é indispensável também tentar contato com o responsável pela página.
Ao orientar vítimas e famílias, insista na rede de apoio: amigos, família, a própria comunidade e o espaço onde a pessoa convive. Isso ajuda a superar o momento e evita que situações piores, ou desfechos trágicos, aconteçam. Se a vítima mostra que o sofrimento é maior do que ela consegue suportar, ou tem dificuldade de retomar a rotina, oriente os responsáveis a buscar ajuda profissional: psicólogos, o serviço de saúde do território, o CAPS.
Quando o caso acontece dentro de um grupo (turma, coletivo, projeto), é vital sensibilizar os demais sobre a seriedade do caso, sem expor a vítima, para evitar revitimização e estigma.
Quando vítima ou família querem seguir com ação judicial, agrupe todos os documentos acima e busque a Defensoria ou um advogado. Às vezes, quando o caso envolve só adolescentes, a mediação e uma resolução pedagógica podem ser mais eficazes que o processo; essa é uma decisão da família com a equipe, com a vítima ouvida.
Se você receber conteúdo desse tipo, não compartilhe. Denuncie o link e apague do seu dispositivo. Não pergunte à vítima «por que mandou». Em nenhuma circunstância a vítima deve ser culpabilizada.
O agressor é o culpado. Sempre.
A lei, o ano e o que ela pede de quem educa. Sem juridiquês, para consultar e citar.
A internet, como qualquer outro espaço de convivência, exige respeito aos direitos humanos para que a tecnologia ajude a construir uma sociedade mais justa. Esses princípios estão em lei. Quem educa não precisa ser jurista, mas precisa saber que a lei existe, o que ela pede e onde encontrá-la. Esta página é para isso.
Marco Civil da Internet, Lei 12.965/2014. A «constituição» da internet brasileira. Garante privacidade e liberdade de expressão, define responsabilidades das plataformas e, no artigo 26, diz que o dever do Estado com a educação inclui capacitar para o uso seguro, consciente e responsável da internet. É a base legal desta formação. No artigo 21, dá à vítima de exposição íntima sem consentimento o direito de exigir remoção diretamente da plataforma.
Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990. Todos os direitos e deveres do ECA valem também na internet. Crianças e adolescentes têm direito à preservação da imagem, da privacidade, da identidade, da autonomia e das ideias (artigo 17), e é dever de todos colocá-los a salvo de tratamento vexatório ou constrangedor (artigo 18). Desde a reforma de 2008, os artigos 240 e 241 tipificam produzir, divulgar e armazenar imagens sexuais de crianças e adolescentes. Adolescentes que praticam ato descrito como crime cometem ato infracional e respondem por medidas socioeducativas, da advertência à internação.
Lei 13.185/2015, Programa de Combate à Intimidação Sistemática. Define bullying e cyberbullying e torna a prevenção um dever legal das instituições: capacitar equipes, promover discussão e campanhas, dar assistência psicológica, social e jurídica a vítimas e agressores, registrar casos e, no caso das escolas, produzir relatórios bimestrais.
Lei 13.718/2018. Alterou o Código Penal para tipificar a importunação sexual e a divulgação de cena de estupro, de sexo ou de nudez sem consentimento. É a lei que responde ao vazamento de imagens íntimas entre adultos.
Lei Geral de Proteção de Dados, Lei 13.709/2018. Todo dado pessoal só pode ser coletado com finalidade clara e base legal, e a pessoa tem direito de saber, corrigir e apagar. Dados de crianças pedem consentimento específico de um responsável. Vale para quem educa também: a lista de presença com CPF, a foto do grupo, o cadastro do projeto são dados pessoais.
Código Civil, artigo 932. Pais respondem civilmente pelos filhos menores sob sua autoridade. Quem cria um perfil falso para humilhar um colega pode gerar indenização que a família paga.
ECA Digital, Lei 15.211/2025. Em vigor desde março de 2026, cria regras específicas para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital: verificação de idade nas plataformas; supervisão de responsáveis, com vínculo entre contas; remoção imediata e comunicação às autoridades de conteúdos de exploração sexual, abuso, aliciamento e sequestro; proibição de traçar perfil e de dirigir publicidade comercial a menores.
Base Nacional Comum Curricular e Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Não são leis penais, mas orientam o currículo: pensamento crítico, responsabilidade, autonomia, respeito à diversidade, empatia e resolução pacífica de conflitos. A cultura digital é competência geral da BNCC. Quem quer justificar a formação diante da gestão encontra aqui o argumento.
A lei está em vigor, mas boa parte dos mecanismos depende de regulamentação pela ANPD e de implementação pelas plataformas. As recomendações da Casa Hacker para este período:
Não é preciso decorar número de lei. É preciso saber que, para cada situação que chega a quem educa, existe uma lei que a alcança, e que os rastros digitais permitem que polícia, Ministério Público e Justiça cheguem aos responsáveis. Diga isso às vítimas, para que saibam que têm a quem recorrer. Diga aos agressores em potencial, para que saibam que a tela não esconde.
A internet não é terra sem lei. É terra com lei que pouca gente leu.
O que faz do kit um kit. Planos prontos, de 6 anos a lideranças, para roda de conversa, sala de aula, coletivo, atividade comunitária e palestra.
Uma cartilha ensina quem lê. Um kit ensina quem vai ensinar. A diferença está aqui: planos de atividade prontos, escritos para quem vai estar na frente de um grupo, com objetivo, duração, materiais, passo a passo com tempos, perguntas disparadoras e variações.
Os planos foram escritos pela Casa Hacker para este kit, a partir do que funcionou nas formações da casa e do que os roteiros anteriores ensinaram. Não dependem de site nem de plataforma: papel, caneta e um celular bastam. Servem para roda de conversa em grupo, sala de aula, coletivo, atividade comunitária na rua e palestra de quarenta minutos.
Cada plano indica a faixa etária para a qual foi pensado e os formatos em que funciona. As faixas são seis: 6 a 8 anos, 9 a 11, 12 a 14, 15 a 17, adultos e famílias, e lideranças que vão multiplicar. Os formatos são cinco: roda em grupo pequeno, sala de aula, coletivo, atividade comunitária aberta e palestra.
Use o filtro para achar o que serve à sua situação. Cada plano diz a que capítulo da cartilha se liga, para você ler antes.
Nenhum plano foi escrito para o seu território. Antes de aplicar, troque os exemplos pelos que a sua comunidade reconhece: o golpe que circulou no bairro, o aplicativo que os jovens dali usam, a notícia falsa que dividiu o grupo da rua. O plano dá a estrutura. O exemplo local dá a verdade.
E depois de aplicar, conte para a gente. Três linhas em falae@casahacker.org: o que funcionou, o que travou, o que perguntaram que você não soube responder. É assim que a próxima versão deste kit fica melhor.
Plano bom é o que sobrevive ao encontro com gente de verdade.
8 planos
A criança percebe que existem coisas que se contam para todo mundo, coisas que se contam só para quem confia e coisas que ficam só com ela, e sabe a quem pedir ajuda quando alguém pede o que não deveria.
Esta faixa não precisa da palavra «privacidade». Precisa de três lugares: o que a gente conta para todo mundo, o que a gente conta só em casa, e o que fica só com a gente. Fale de gente, não de tela. A tela entra no fim.
1. A história (10 min). Conte, com o seu jeito, a história de um personagem que tinha uma mochila mágica onde guardava tudo o que sabia: o nome dele, a rua onde morava, a foto do banho de piscina, a senha do tablet, o segredo que o amigo contou. Um dia a mochila abriu na praça e tudo caiu no chão, e as pessoas começaram a pegar. Pergunte: o que ele deve pegar de volta correndo? O que pode deixar as pessoas verem? Deixe as crianças responderem antes de qualquer explicação.
2. As três caixas (15 min). Apresente as caixas: o megafone (pode contar para todo mundo), a casa (conta para quem a gente confia) e o coração com cadeado (fica só comigo, e com quem cuida de mim). Distribua os cartões. Cada criança escolhe uma caixa para o seu cartão e diz por quê. Quando duas crianças discordarem, não decida por elas. Pergunte ao grupo. Dica: a foto de piscina costuma gerar a melhor conversa.
3. E se alguém pedir? (10 min). Pergunte: e se uma pessoa que você não conhece, no jogo ou no celular, pedir uma coisa da caixa do coração? Construa com o grupo três respostas, e repita em coro: «Não posso.» «Vou perguntar para quem cuida de mim.» «Vou contar para um adulto que eu confio.» Pergunte a cada criança quem é o adulto dela.
4. O desenho (5 min). Cada criança desenha o próprio coração com cadeado e o que guarda dentro. Não precisa mostrar. Quem quiser, mostra.
Criança que coloca coisas do coração no megafone com naturalidade pode estar acostumada a ser muito exposta. Não corrija na frente do grupo; converse com quem cuida dela depois.
A criança descobre quanto dá para saber sobre uma pessoa só pelo que ela publica, aprende a separar o que é seguro do que expõe, e entende que um perfil pode ser falso.
Monte o perfil fictício com cuidado: publicações inocentes que, juntas, revelam demais. Exemplo: «Primeiro dia na escola nova!» com a fachada e o nome da escola ao fundo; «Sozinho em casa até as seis, que liberdade»; «Meu cachorro Thor na frente de casa» com o número da porta visível; «Feliz aniversário pra mim, 10 anos!»; um print do jogo preferido com o nome de usuário. Nenhuma publicação sozinha é grave. O conjunto é o ponto.
1. O caso (5 min). Apresente o perfil como o de uma criança inventada, chamada por exemplo Bia. Diga que o grupo é uma equipe de detetives e a missão é descobrir tudo o que dá sobre a Bia só olhando o perfil.
2. A investigação (15 min). Em grupos de três ou quatro, com a lupa e a ficha do detetive: nome, idade, onde estuda, onde mora, quando fica sozinha, o que gosta, o nome de usuário no jogo. Circule e provoque: «dá para saber a rua?», «dá para saber o horário?».
3. A virada (10 min). Junte as fichas num cartaz. Pergunte: se a Bia é uma criança de verdade, quem mais pode ler esse perfil? Deixe o grupo chegar sozinho à resposta. Depois pergunte o que a Bia deveria ter feito diferente em cada publicação, e reescreva as legendas com o grupo. A foto do cachorro pode ficar; o número da porta, não.
4. A pessoa existe? (10 min). Se houver internet, abra o site thispersondoesnotexist.com e recarregue algumas vezes. Cada rosto foi inventado por computador. Pergunte: como você saberia se a pessoa que te chamou no jogo existe mesmo? Construa a regra: quem eu não conheço na vida real, eu não conheço. Amigo de internet é conhecido de internet.
5. Meu perfil, minhas regras (10 min). Cada criança escreve três regras para o próprio perfil ou para o jogo que usa. Quem quiser, lê. Termine com a pergunta: a quem você conta se alguém estranho te chamar? Nomeie os adultos.
Se uma criança contar que «isso já aconteceu comigo» (alguém estranho chamou, pediu foto, pediu segredo), acolha na hora, sem alarde, e converse em particular depois. O capítulo sobre o que fazer traz os passos.
O grupo aprende a distinguir zoação de cyberbullying com três critérios objetivos, entende o papel de quem assiste e combina o que fazer quando vir acontecer.
Nesta faixa a zoação é linguagem. Se a atividade começar dizendo que zoar é errado, o grupo desliga. Comece reconhecendo que brincadeira existe, e que o problema é saber onde ela acaba.
Cartões sugeridos: «apelido que a pessoa curte e responde na mesma moeda»; «apelido que a pessoa pediu para parar e o grupo continuou»; «montagem engraçada com a foto de um colega, postada uma vez e apagada quando ele pediu»; «grupo criado só para falar mal de alguém da turma»; «print de uma conversa privada mandado para o grupão»; «marcar alguém numa foto constrangedora todo dia»; «uma discussão com ofensas entre duas pessoas que brigaram»; «vídeo de um colega caindo, repostado por metade da turma».
1. Os três critérios (10 min). Apresente as três placas. Bullying, na tela ou fora dela, é o que tem os três ao mesmo tempo: intencional (quer machucar), repetido (acontece de novo) e desigual (uma parte tem mais gente, mais popularidade ou mais alcance). Dê um exemplo de cada critério isolado e pergunte se é bullying. Uma briga com ofensas entre iguais não é; é briga.
2. Classificação (20 min). Em grupos de quatro, os cartões são classificados: brincadeira, violência ou depende. Cada grupo apresenta um cartão em que discordou internamente. Não dê gabarito rápido; peça que apliquem os três critérios em voz alta. O cartão da discussão entre duas pessoas e o da montagem apagada costumam dividir, e é ótimo.
3. Por que a tela piora (10 min). Pergunte ao grupo o que muda quando a zoação acontece no celular em vez do pátio. Anote no cartaz. Conduza para quatro pontos: não tem hora de ir para casa; vira mil em minutos; fica gravado; quem agride não vê o rosto de quem fere.
4. A plateia (15 min). Pergunte quantas pessoas, numa situação de cyberbullying num grupo de trinta, são vítima ou agressor. Duas, três. E as outras vinte e sete? Cada pessoa escreve num papel uma coisa concreta que faria ao ver um colega sendo humilhado num grupo. Recolha e leia sem dizer quem escreveu. Junte no cartaz o «combinado da turma»: não repassar, sair do grupo, denunciar na plataforma, falar com a pessoa em privado, avisar um adulto de confiança.
5. Fechamento (5 min). Pergunte quem gostaria de ser a pessoa que age em vez da que assiste. Termine com a frase: brincadeira acaba quando o outro pede. Se continua, mudou de nome.
Risadas nervosas ou olhares dirigidos a uma pessoa específica durante a classificação são sinal de que há um caso em curso. Não aponte. Procure a pessoa depois, em privado, e leia o capítulo sobre o que fazer.
O grupo percebe a própria bolha, aprende a checar um conteúdo em cinco perguntas e faz uma verificação real, ao vivo, de algo que circulou na semana.
Escolha o conteúdo com cuidado: algo que circulou de verdade no território ou nas redes dos jovens naquela semana, de preferência já checado por alguma agência, para que você saiba a resposta. Evite tema eleitoral partidário nesta faixa; funciona melhor com saúde, golpe, celebridade ou boato local.
1. A frase (5 min). Mostre a frase «A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida» assinada por Clarice Lispector. Quem já viu? Muitos. Conte que é de Vinicius de Moraes, do Samba da Bênção. Se uma frase bonita circula errada há anos, o que mais circula errado?
2. Minha bolha (15 min). Cada pessoa, no próprio celular e sem mostrar, abre o feed de uma rede e anota em silêncio: os cinco primeiros conteúdos são sobre o quê? Quantos são de gente que pensa como você? Quantos são de fora do seu círculo? Recolha impressões em voz alta, sem detalhes. Explique a curadoria algorítmica: o aplicativo mostra o que você já gostou. Pergunte: quem decide o que você vê? Você ou a máquina?
3. As cinco perguntas (10 min). Apresente o checklist: autor (quem escreveu? é especialista? tem reputação?), precisão (as fotos são reais? outras fontes dizem o mesmo?), objetividade (é completo ou só um pedaço?), atualização (de quando é?), cobertura (explica a fundo ou é só manchete?). Uma pergunta de cada por grupo.
4. Checagem ao vivo (20 min). Apresente o conteúdo escolhido. Em grupos de quatro, com celular, dez minutos para responder às cinco perguntas e chegar a um veredito: verdadeiro, falso, ou fora de contexto. Ensine no caminho: pesquisar o título entre aspas, procurar em Comprova, Aos Fatos ou Lupa, busca reversa da imagem. Cada grupo apresenta o veredito e como chegou. Só então mostre a checagem oficial.
5. Bola de neve e fechamento (10 min). Uma pessoa «compartilha» um papel com dez, cada uma com outras dez. Em dois passos, cem. Peça que tentem pegar o papel de volta. Termine construindo com o grupo uma «frase de parada» pessoal para antes de compartilhar. Sugestão: «Eu assinaria isso?»
Jovens que defendem o conteúdo falso mesmo depois da checagem não estão sendo teimosos; estão protegendo a identidade do grupo deles. Não humilhe. Volte à pergunta de quem ganha com isso, e deixe a dúvida trabalhar.
Cada pessoa sai com uma configuração de segurança feita no próprio celular, sabe reconhecer as três versões do golpe do WhatsApp e tem uma frase de parada combinada para a próxima ligação suspeita.
Este é o plano para adultos da comunidade em geral: pais, avós, trabalhadores, gente que vai ao centro comunitário, à igreja, à associação. Muitos chegam envergonhados por já terem caído em golpe. Comece tirando a vergonha: ninguém cai por burrice; cai por confiança, num dia corrido. Fale devagar, repita, e faça no celular junto com eles.
1. A pior senha do mundo (15 min). Anuncie o concurso: quem monta a pior senha ganha. Quinze pontos: 4 pelo nome, 2 pelo CPF, 6 pelo pet, 8 pela data de nascimento. As pessoas riem e montam. Depois pergunte: quantas dessas informações estão no seu perfil, ou no seu Facebook, ou na porta de casa? Conclua: senha fraca não é a curta, é a que quem te conhece adivinha.
2. Uma senha, uma porta (15 min). Explique a regra em uma linha: comprida, única, inesperada. Mostre um exemplo de senha boa feita de quatro palavras sem relação. Pergunte quem usa a mesma senha em tudo. Muitas mãos. Explique o «vazou uma, vazaram todas» e mostre, com o seu próprio e-mail, o haveibeenpwned.com. Ofereça o caderninho guardado em casa como gerenciador de senhas honesto para quem não quer aplicativo; para quem quer, cite o Bitwarden.
3. A segunda chave, agora (20 min). Ative junto com o grupo a confirmação em duas etapas do WhatsApp: Configurações, Conta, Confirmação em duas etapas. Vá de cadeira em cadeira. Peça que anotem o PIN no caderninho. Quem tem e-mail no Gmail faz o mesmo na conta Google, se houver tempo. Uma configuração feita vale mais que uma hora de aviso.
4. Caça à isca (20 min). Mostre o golpe real, anonimizado. Em duplas, dois minutos para achar as pistas. Depois, monte no cartaz a lista: urgência, autoridade, um link, um pedido de código ou dinheiro, uma história boa ou assustadora demais. Apresente as três versões do golpe do WhatsApp («oi mãe, troquei de número», o código de seis dígitos «mandado por engano», o perfil clonado) e a defesa de cada uma.
5. Ligue de volta (15 min). Encene em dupla: um é o «gerente do banco» ligando para confirmar dados. Quem atende só tem uma tarefa: dizer «vou desligar e ligar para o número do cartão». Repita com o «filho que trocou de número» e o «suporte da empresa de energia». Termine construindo, no cartaz, as frases de parada do grupo: «não clico, digito», «desligo e ligo de volta», «peço para esperar».
6. Fechamento (5 min). Cada pessoa diz em voz alta uma coisa que vai fazer hoje. Pergunte quem pode ensinar o que aprendeu a alguém em casa até o fim da semana.
Quem se recusa a ativar a segunda chave costuma ter medo de perder o acesso, não preguiça. Explique o PIN, anote junto, e mostre que o WhatsApp pergunta o PIN de vez em quando justamente para a pessoa não esquecer.
Famílias saem com um combinado de casa sobre telas, sabem por que a foto da criança na rede merece uma segunda pergunta e conhecem o caminho para pedir ajuda se algo acontecer com um filho.
Não é roda para dizer aos pais o que fazer. É roda para os pais dizerem o que já tentaram e o que não deu certo, e saírem com um combinado que eles mesmos escreveram. Evite a palavra «proibir». Use «combinar».
1. Palpite contra painel (15 min). Cada pessoa escreve quantas horas por dia acha que usa o celular. Depois abre o painel de tempo de uso do próprio aparelho (Android: Bem-estar digital; iPhone: Tempo de uso) e compara. Ninguém mostra. Pergunte quem se surpreendeu. Diga a frase que muda a conversa: criança copia o que vê. O combinado da casa começa pelo adulto.
2. É sua culpa gostar? (10 min). Mostre o cartaz e deixe responderem. Explique o design persuasivo em duas frases: cada cor, som e vibração foi testado para fazer a pessoa voltar, e quanto mais tempo ela fica, mais anúncio vê. Não é falta de disciplina; é desenho contra a família. Isso tira a culpa e devolve a escolha.
3. A foto do filho (15 min). Pergunte quem já postou foto dos filhos. Todos. Conte, sem julgamento, o que a Sociedade Brasileira de Pediatria diz sobre exposição excessiva e proponha três perguntas antes de postar: ele vai gostar de encontrar isso aos quinze anos? Aparece a escola, a rua, a rotina? Quem, além dos amigos, pode ver? Mostre onde se muda a privacidade das publicações. Quem quiser, muda ali.
4. Sinais e caminho (15 min). Apresente em cinco minutos os sinais de que algo está acontecendo com uma criança on-line: isolamento, mudança brusca no uso do celular, sono ruim, medo de determinado grupo, tristeza que não passa. Depois, o caminho em uma linha: acolher sem interrogar, guardar as provas sem apagar, procurar o Conselho Tutelar ou a Safernet, e nunca culpar a criança. Deixe claro que a criança só conta se souber que não vai ser punida por ter contado.
5. Combinado da nossa casa (15 min). Cada família escreve três combinados na folha, e um deles tem de valer para os adultos também. Sugestões, se travarem: celular fora do quarto na hora de dormir; jantar sem tela; um horário do dia em que a criança pode pedir ajuda com qualquer coisa que viu na internet sem levar bronca. Quem quiser lê o seu.
6. Fechamento (5 min). Peça que cada família cole o combinado na geladeira e volte à roda na próxima vez para contar o que aconteceu.
Pais que reagem ao passo 4 com «na minha casa isso não acontece» são os que mais precisam da folha impressa. Entregue sem insistir.
Um grupo de lideranças, educadores e facilitadores sai com um diagnóstico do próprio território, um plano de primeira roda de conversa marcado e a apresentação do kit dominada para conduzir sozinho.
Esta é a formação de quem vai formar. Ela reproduz, em três horas, o caminho que a Casa Hacker percorre em cada cidade: escutar o território, abrir o diálogo, formar, deixar o kit e multiplicar. Quem conduz não precisa ser da Casa Hacker; precisa ter feito esta atividade uma vez.
1. Por que estamos aqui (20 min). Abra com a pergunta das 150 vezes e a dinâmica do mapa da praça: o que a internet substituiu na vida de cada um nos últimos cinco anos, e quem ensinou. Apresente os capítulos 0 e a estrutura do kit em dez minutos, usando a apresentação. Diga a frase do programa: proibir não educa, educar protege.
2. Diagnóstico do território (40 min). Em grupos por bairro ou por espaço de atuação, três cartazes: o que já aconteceu aqui (golpes, exposição, cyberbullying, boato), quem está mais exposto (idosos, crianças de que idade, mulheres, jovens) e quem já cuida disso (escola, posto, igreja, coletivo, conselho tutelar). Cada grupo apresenta em três minutos. Junte num cartaz único: é o mapa do território, e é ele que decide por qual capítulo começar.
3. Os capítulos que o território pede (40 min). Com o mapa na parede, o grupo escolhe os dois ou três capítulos mais urgentes. Divida a sala: cada subgrupo lê o capítulo escolhido (quinze minutos) e prepara, com os slides daquele capítulo, uma apresentação de cinco minutos para os demais. Assistir aos colegas apresentarem é o que dá confiança para apresentar sozinho.
4. O plano da primeira roda (40 min). Individualmente ou em dupla, cada pessoa preenche a folha: com quem (público e quantos), onde, quando (data), qual plano de atividade deste kit vai usar, o que precisa levar, quem convida, e um telefone do Conselho Tutelar e da delegacia locais anotado no rodapé. A data tem de ser nas próximas quatro semanas; plano sem data é intenção.
5. Ensaio (30 min). Três pessoas voluntárias conduzem, cada uma, cinco minutos de um plano de atividade com o grupo fazendo de plateia. Feedback em duas frases por pessoa: uma coisa que funcionou, uma que mudaria. Quem conduz aprende mais no ensaio do que na leitura.
6. Combinados da rede (10 min). Como o grupo vai se manter em contato (um grupo de mensagens serve), quando se reencontra para contar como foi a primeira roda, e quem escreve para falae@casahacker.org com o relato. Encerre lembrando a licença: o kit é para copiar, adaptar e redistribuir.
A folha do passo 4 é o produto da tarde. Quem sai sem data marcada raramente aplica. Se alguém não conseguir marcar, pergunte o que falta e resolva ali: às vezes é só o espaço, e outra pessoa da sala tem.
Uma plateia grande e mista sai sabendo o que é privado, como uma isca se parece, como checar antes de compartilhar e a quem recorrer, e com um gesto feito no próprio celular.
Palestra não é aula. É uma sequência de perguntas com três ou quatro respostas fortes e um gesto no fim. Escolha, antes, os slides que vai usar: da apresentação inteira, este roteiro usa cerca de vinte. Teste o projetor. Descubra quem está na plateia (idosos? pais? jovens? lideranças?) e ajuste os exemplos.
0 a 5. A pergunta. Slide da abertura. Quantas vezes por dia você pega o celular? Peça palpites em voz alta. Revele os 150. Diga quem você é em uma frase e por que aceitou conduzir esta conversa.
5 a 12. O que é seu. Slides de privacidade: as três caixas e o banheiro de vidro. Pergunte à plateia em que caixa vai o horário em que a pessoa sai de casa. Deixe discordarem. Feche com «privacidade não é esconder, é escolher».
12 a 20. A isca. Projete o golpe real da região. Peça à plateia para gritar as pistas. Marque cada uma no slide da isca: urgência, autoridade, link, pedido, história. Apresente as três versões do golpe do WhatsApp e a defesa de cada uma. Frase de parada: «na dúvida, não clique; digite».
20 a 27. Checar antes de compartilhar. A frase da Clarice Lispector que é de Vinicius. As cinco perguntas, distribuídas em papel. Se houver tempo, uma checagem ao vivo de um conteúdo da semana, pelo projetor. Feche com «quem compartilha, publica».
27 a 33. Quando dá errado. Slides de o que fazer: os oito passos em uma tela, o «não seja um espectador» e a lista de a quem recorrer com os telefones locais. Diga com clareza a única exceção que muita gente não sabe: conteúdo sexual de menor de 18 anos, só a vítima ou o responsável guardam.
33 a 38. O gesto. Peça que todos peguem o celular e façam uma coisa, agora: ativar a confirmação em duas etapas do WhatsApp (Configurações, Conta, Confirmação em duas etapas). Guie passo a passo. Quem terminar ajuda quem está ao lado. É o momento mais lembrado da palestra.
38 a 40. Fechamento. «Proibir não educa; educar protege.» Onde está a cartilha (casahacker.org/internetsegura), como pedir uma formação para o território (falae@casahacker.org), e que tudo pode ser copiado e multiplicado.
Perguntas. Reserve dez a vinte minutos. As perguntas mais comuns e as respostas curtas: «meu neto não me ouve» (então faça o combinado da casa junto com ele, não para ele); «caí num golpe, e agora?» (banco primeiro, boletim de ocorrência depois, e sem vergonha); «e o TikTok?» (o mesmo de todos: configurar a privacidade, conversar sobre o que vê, e o ECA Digital agora obriga as plataformas a mais).
Se alguém procurar você depois para contar um caso pessoal, não resolva no corredor. Acolha, anote um contato, e combine uma conversa em privado. O capítulo sobre o que fazer é o seu roteiro.
Kits, ferramentas, agências de checagem, filmes e onde denunciar. Cada link conferido, com uma linha dizendo para que serve.
Tudo o que está abaixo foi conferido em setembro de 2026. O que não respondia mais saiu. Se um link quebrar, avise em falae@casahacker.org.
As formas que a Casa Hacker usa para levar o tema ao território, e que qualquer grupo pode copiar: material educativo impresso (esta cartilha serve); exposição com cartazes na praça, na escola ou no centro comunitário; capacitação de outros educadores com a apresentação deste kit; orientação e mentoria individual para quem chega com um caso; e círculos de debate com a lente e o contexto do próprio território.
Este kit é da Casa Hacker e está sob licença Creative Commons BY-SA 4.0. Copie, imprima, adapte e redistribua. Cite a origem e mantenha a licença. Foi feito para ser multiplicado.
Professores, gestores públicos, lideranças comunitárias, agentes sociais — e também estudantes, famílias e comunidades. O projeto é aberto a pessoas de diferentes idades e níveis de conhecimento.
Nada. As formações são presenciais e gratuitas, nas cinco cidades da iniciativa.
A cartilha digital com todo o conteúdo das formações, nesta página: doze capítulos, planos de atividade por faixa etária, uma apresentação de slides para formar outros educadores e modelos de flyer e cartaz. Licença CC BY-SA 4.0: copie, adapte e multiplique.
Escreva pra falae@casahacker.org — a iniciativa cresce cidade a cidade, junto com escolas, organizações e territórios.

No dia 3 de julho de 2026, a Casa Hacker participou, pela terceira vez, da formação da Escola de Conselhos da Unicamp, conduzindo um encontro sobre Segurança Digital para Crianças e Adolescentes.

Casa Hacker e Desktop lançam o Internet Segura: Formação de Educadores — capacitação gratuita e presencial em segurança digital para professores e lideranças comunitárias de Campinas e Sumaré, em novembro de 2025.
Os recursos de acessibilidade são disponibilizados conforme solicitação individual. Peça o que você precisa — intérprete de Libras, audiodescrição, acessibilidade física, apoio individualizado, atendimento preferencial e outros.
Peça com pelo menos 15 dias de antecedência: com esse prazo garantimos o recurso; com menos, fazemos todo o esforço, mas não conseguimos garantir.