As desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero são barreiras concretas para que a democracia seja um valor vivido no dia a dia — e a juventude periférica, que mais sente essas barreiras, é a que menos ocupa os espaços onde as decisões são tomadas.
Isso também vale para a tecnologia. Quem escreve as regras da internet, define o preço do acesso, decide como uma inteligência artificial pode ser usada ou o que uma plataforma precisa moderar quase nunca mora onde essas decisões doem primeiro. A periferia entra nessas conversas como estatística, raramente como voz.
Nossa resposta se consolidou em iniciativas complementares e evolutivas: o Conselho Jovem (2021–2023, com a Fundação FEAC) realizou 22 encontros de formação, escuta ativa e advocacy; dele nasceu o Fórum de Juventudes, movimento mais amplo e autônomo, criado e conduzido pelas próprias juventudes de Campinas — com 10 jovens bolsistas no Comitê de Liderança, 5 fóruns territoriais nas regiões periféricas, mapeamento de iniciativas e o podcast “Juventude na Voz!”.
direitos digitais são direitos humanos.
A Casa Hacker é uma das organizações que integram a Coalizão Direitos na Rede (CDR) — rede criada em 2016 e formada hoje por mais de 40 entidades da sociedade civil, laboratórios universitários, ativistas e pesquisadores. Nossa assinatura está na relação oficial de entidades da coalizão, ao lado de nomes como Idec, Artigo 19, InternetLab, Coding Rights, Instituto Alana, Data Privacy Brasil, Aqualtune Lab, Creative Commons Brasil e Wikimedia Brasil.
Compartilhamos, sem reservas, o compromisso que a coalizão assume por escrito: a defesa dos direitos digitais — entre eles o direito ao acesso, a liberdade de informação e de expressão, a segurança e o respeito à privacidade e aos dados pessoais, e o estabelecimento e a preservação de mecanismos democráticos e multiparticipativos de governança, incluindo a formulação de políticas públicas. É a mesma frase que sustenta a nossa: defender direitos digitais é fortalecer os direitos humanos e a democracia.
Na prática, isso significa aderir a uma agenda que vai muito além do que uma organização faria sozinha — acesso, dados pessoais, eleições, inteligência artificial, liberdade de expressão, regulação de plataformas, saúde digital e vigilância. E significa uma escolha de método: em incidência, uma organização periférica que assina junto com mais de 40 outras não fala mais alto — fala com peso institucional. É por isso que a CDR não é para nós uma rede de logotipos, e sim a forma como levamos a pauta da periferia a mesas onde, sozinhos, não teríamos cadeira.
o que já assinamos junto
- Agosto de 2020 · #CriptoAgosto. Campanha da CDR pela importância da criptografia nas comunicações. A Casa Hacker tirou o tema do círculo técnico com a conversa “Tudo o que você queria saber sobre criptografia” e a live “Criptografia na vida real” — o que é, por que importa e como chega até nós.
- Fevereiro de 2022 · Carta aberta sobre a regulação da Inteligência Artificial. Ao lado de dezenas de organizações, pedimos que a comissão de juristas encarregada do marco legal da IA fosse ampliada com paridade de gênero e diversidade racial, étnica e regional, e que o debate saísse do campo exclusivamente jurídico para audiências públicas com quem é afetado. Regular IA é decisão transversal, não tema de especialista.
- Dezembro de 2023 · Nota sobre a consulta pública da Estratégia Nacional de Governo Digital. A consulta abriu por 10 dias úteis, em plena virada de ano. Pedimos prorrogação até 31 de janeiro de 2024: participação social não é carimbo de prazo cumprido.
- Dezembro de 2023 · Não ao art. 3º do PL 3696/2023. O dispositivo dava à Ancine poder para suspender e fazer cessar o uso de obras sem passar pelo Judiciário, sem salvaguardas para os direitos de quem usa. Assinamos contra: liberdade de expressão e acesso à cultura não se retiram por via administrativa.
- Julho de 2024 · Ofício à Advocacia-Geral da União sobre a migração das concessões de telefonia. O TCU estimou os bens reversíveis da telefonia fixa em R$ 121 bilhões; os acordos aprovados com Oi e Vivo somaram R$ 10,4 bilhões, com falhas reconhecidas na avaliação de 49,18% dos bens — mais de um milhão deles avaliados em ZERO. Uma organização de educação digital assina um documento sobre telecomunicações por um motivo direto: cada real descontado ali é rede de alta capacidade que deixa de chegar à periferia.
- Novembro de 2025 · Compromisso Antirracista Akoben. Junto da CDR, assinamos a adesão ao compromisso do Aqualtune Lab e assumimos metas objetivas para os nossos próprios eventos — a começar pela garantia de ao menos uma pessoa negra na programação de todo evento com três ou mais palestrantes. Não há justiça digital sem justiça racial.
do texto do projeto ao voto.
Advocacy, para nós, não termina na assinatura. A Coalizão pela Genialidade Feminina — articulada a partir da Casa Hacker e apoiada pela Rise Up, programa internacional de aceleração de lideranças cuja rede de 800 líderes já ajudou a aprovar mais de 185 leis e políticas em todo o mundo — nasceu para dar visibilidade às mulheres geradoras de conhecimento nos quatro cantos do Brasil: ribeirinhas da Amazônia, sertanejas, caiçaras, meninas das favelas, das quebradas e dos territórios urbanos. E para monitorar as políticas públicas que atingem quem está na ponta da educação básica: professoras e diretoras da escola pública.
O método é o mesmo em qualquer casa legislativa: identificar o projeto de lei, acompanhar a tramitação, pressionar parlamentares, propor mudanças na redação e fazer a coisa andar.
O caso que melhor mostra o resultado é o PL 840/2021 (nº anterior: PLS 398/2018), que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Lei de Inovação para estimular a participação feminina em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, química, física e tecnologia da informação, mitigar as barreiras impostas a mulheres nessas áreas e prorrogar o prazo de conclusão do ensino superior nos casos de maternidade e adoção. O texto do projeto foi alterado a partir de sugestões encaminhadas pela coalizão — houve reuniões de trabalho com o Ministério da Educação, o Ministério das Mulheres e a pasta da indústria, e a pauta chegou a eventos da ONU, à LatinoWare e ao Favela.Lab.
O projeto teve o parecer do relator aprovado na Comissão de Educação da Câmara em outubro de 2025 e está na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania desde então, com outros três projetos apensados, aguardando a designação de relator. Seguimos monitorando — e é assim que se mede incidência: pelo andamento, não pelo evento.
E na esfera institucional a incidência segue viva: monitoramos comissões de educação, ciência e tecnologia, articulamos coalizões e defendemos mais investimento público — o Brasil ainda investe menos em educação e C&T que todos os 15 países comparáveis.