Marcelo Oliveira (Dustin Maia), artista, produtor musical, empresário e gerente de projetos
Essa história não começou em uma reunião de planejamento, nem dentro de uma organização social. Começou andando pelo bairro, em uma visita sem hora marcada à Casa de Cultura Itajaí.
Foi ali que encontrei Lyneker Keroake, DJ e produtor musical do Parque Itajaí, e Isabel, gestora cultural, assistente social e co-fundadora da Casa Hacker. A conversa começou como tantas outras que já tinham acontecido antes entre pessoas que vivem na periferia e tentam fazer a cultura acontecer mesmo quando tudo parece improviso.
Naquele dia eles me contaram sobre uma comunidade que há muitos anos lutava para colocar o bairro no mapa cultural da cidade. Música, eventos, oficinas gratuitas, encontros que nascem da vontade de transformar o lugar onde a gente vive.
Aquilo não era muito diferente do que eu já vinha fazendo. A diferença é que, naquele encontro, algo começou a fazer sentido de uma forma nova.
Meu nome é Marcelo Oliveira, mas quase todo mundo me conhece como Dustin Maia. Sou artista, produtor musical, empresário e atualmente atuo como gerente de projetos na Casa Hacker. Desde 2022 faço parte da organização de forma mais direta, primeiro coordenando o Hub Quebrada em Movimento e, mais recentemente, o Hub Integração, um projeto que articula hubs instalados em três territórios periféricos de Campinas, nos Amarais, no Campo Grande e no Oziel.
Minha relação com projetos de impacto não começou agora. Desde 2016 venho me envolvendo em iniciativas que buscam transformar realidades por meio da arte, da troca de conhecimento e da criação de oportunidades dentro das comunidades. Na época eu ainda não tinha clareza de que aquilo fazia parte de uma rede maior de lideranças de impacto. Para nós era simplesmente a vontade de fazer algo acontecer.
Só mais tarde fui entender que aquele conjunto de ações, muitas vezes realizadas de forma voluntária, fazia parte de um esforço coletivo em direção à justiça social. Para mim, justiça social sempre significou algo muito concreto: garantir oportunidades iguais e acesso para todas as pessoas.
Durante muitos anos minha rotina esteve ligada à produção cultural, à música, à organização de eventos e à realização de oficinas gratuitas. A gente fazia porque acreditava. Fazia mesmo quando os recursos eram poucos, quando o reconhecimento não vinha e quando parecia que tudo dependia apenas da insistência de quem estava ali no território.

Foi em uma dessas caminhadas pelo bairro que conheci uma parte importante dessa história. Em uma visita sem hora marcada à Casa de Cultura Itajaí, encontrei Lyneker Keroake, DJ e produtor musical do Parque Itajaí, e Isabel Barbosa, gestora cultural, assistente social e co-fundadora da Casa Hacker. Foi nesse encontro que comecei a ouvir sobre uma rede de pessoas que há muito tempo lutava pelos mesmos ideais que moviam a gente a fazer música e organizar atividades culturais. Havia um desejo coletivo de colocar o bairro no mapa cultural da cidade, do estado e, quem sabe, do país.
Naquele mesmo dia tive a sensação de estar entrando em um universo de possibilidades. Pela primeira vez encontrei pessoas que conseguiam nomear sentimentos e desejos que faziam parte do meu cotidiano. Mas não era apenas isso que me impressionava. Aquela rede também possuía metodologias, ferramentas, canais de comunicação e formas claras de participação. Havia um modo de organizar aquilo que nós já fazíamos intuitivamente.
Para mim aquilo foi quase mágico. Durante muito tempo eu sonhava em formalizar as estruturas que a gente vinha construindo com tanto esforço. Sempre que esse assunto surgia, porém, alguém dizia que aquilo seria burocracia demais ou que poderíamos perder nossa liberdade.
O encontro com a Casa Hacker me mostrou que organização não precisa ser o oposto da liberdade. Pelo contrário, pode ser justamente o caminho para sustentar aquilo que acreditamos.
Com o passar do tempo, a Casa Hacker se consolidou como associação e manteve suas portas abertas para a comunidade. Mais do que isso, nos convidou para fazer parte da rede.
Em 2019 eu e Nyak, cantora, educadora social e gestora de projetos, participamos de um podcast realizado por estudantes da Escola Estadual Tenista Esther Bueno, no Jardim Rossin. A atividade fazia parte de uma oficina conduzida pela Casa Hacker. A partir desse encontro fomos convidados para nos apresentar, com cachê, no primeiro festival da organização.


Foi nesse momento que percebi que ainda havia muito a aprender. Decidimos então participar da primeira trilha formativa do que viria a se tornar o Hub de Cidadania Ativa Quebrada em Movimento. O próprio nome do hub nasceu de um processo coletivo, com participação ativa da comunidade, algo que eu já vinha observando na forma como a Casa Hacker construía suas iniciativas.
De repente aquele movimento tinha identidade. O nome começou a circular nas conversas do bairro. Algumas pessoas apoiavam com entusiasmo, outras olhavam com desconfiança. Para quem observava de fora, as conexões institucionais pareciam surgir rápido demais. Mas só quem estava dentro sabia o tamanho do sonho que estava sendo conduzido e o quanto cada passo representava uma conquista construída no presente.
Depois de muito aprendizado e muitas trocas surgiu uma oportunidade que mudou minha vida. E não digo isso como romantização.
Em 2022 assumi a gestão do Hub de Cidadania Ativa Quebrada em Movimento, um projeto que apoia lideranças de impacto que atuam no território do Campo Grande, em Campinas.




O propósito do hub é reconhecer e fortalecer iniciativas que já existem nas comunidades. Muitas vezes são projetos que melhoram a vida das pessoas, mas que permanecem invisíveis para grande parte da sociedade. Falta estrutura, falta recurso humano, falta investimento. Ainda assim essas iniciativas acontecem.
O trabalho do projeto é oferecer escuta, apoio técnico e investimento para que aquilo que já nasce no território possa ganhar força e continuidade.
Desde a primeira atividade da qual participei existe uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça. A periferia tem a sabedoria e a capacidade para resolver seus próprios problemas. O que falta são recursos.
Ao longo desses anos convivendo com pessoas curiosas, organizadas e profundamente comprometidas com suas comunidades, muita coisa mudou em mim. Ao contrário do que eu ouvia no passado, eu não perdi minha liberdade.
Consegui construir uma rotina que comporta diferentes dimensões da minha vida, incluindo a gestão de carreiras artísticas, o trabalho com projetos de impacto socioambiental, a criação musical e a produção audiovisual.
Nesse percurso também tive acesso a histórias que estavam muito próximas de mim, mas que talvez eu nunca conheceria em outras circunstâncias. Fiz amizades importantes, aprendi a lidar com conflitos e desenvolvi uma capacidade maior de refletir sobre minhas próprias escolhas.










Com o tempo também passei a desenvolver ferramentas de avaliação para iniciativas sociais. Curiosamente, muitas dessas ferramentas começaram a ser utilizadas também para aprimorar negócios, projetos culturais e até processos de desenvolvimento pessoal.
No fundo percebi que eu nunca quis burocratizar aquilo que fazíamos. O que eu buscava era algo mais simples e ao mesmo tempo mais poderoso. Eu queria construir resultados alcançáveis e ter dados que pudessem demonstrar aquilo que a comunidade já realiza todos os dias.
Queria ter argumentos para responder quando alguém afirma que a favela não venceu. A resposta que aprendi a dar é simples. Ainda não venceu. Mas existem muitas etapas sendo construídas para que esse dia chegue.
Hoje sigo atuando na Casa Hacker, agora à frente do Hub Integração, uma iniciativa que conecta e fortalece hubs instalados em três territórios periféricos de Campinas.
Meu trabalho consiste em articular redes, apoiar equipes e ampliar as possibilidades de impacto das iniciativas que nascem nesses territórios.
Cada projeto que surge, cada pessoa que encontra espaço para desenvolver uma ideia, reforça algo que aprendi ao longo dessa caminhada. A transformação que buscamos não é individual. Ela é coletiva e acontece quando comunidades têm acesso a recursos, ferramentas e oportunidades para desenvolver aquilo que já sabem fazer.
Seguimos juntos nessa construção.
Um abraço e muita luz.
Marcelo Oliveira
Dustin Maia