ENTRE A ESCUTA E A ESTRATÉGIA: A ASSESSORIA DE IMPACTO NO FORTALECIMENTO DE LIDERANÇAS PERIFÉRICAS

Momento de assessoria individual com a liderança do Inova Quebrada durante a Formação sobre Modelo C

A assessoria de impacto junto a lideranças periféricas não segue uma lógica padronizada ou rígida. Embora existam diretrizes, como termos de referência e ciclos formativos, na prática, cada atendimento é único e precisa ser adaptado à realidade de cada liderança e do seu território. A verdade é que não existe uma receita pronta e nem um manual.

Este relato de experiência nasce da minha atuação direta como assessora de impacto na Casa Hacker e tem como objetivo compartilhar reflexões sobre esse processo, trazendo os desafios, aprendizados e caminhos construídos junto às lideranças acompanhadas.

A experiência vem sendo desenvolvida desde agosto de 2025, através da minha atuação como Assessora de Impacto em dois projetos da Casa Hacker: PerifaImpacto e Inova Quebrada, acompanhando diretamente 16 lideranças por meio de assessorias individuais, articuladas a um processo formativo mais amplo. Os encontros acontecem em formato híbrido, com momentos online, presenciais, imersões de conteúdo, viagens a ecossistemas de impacto e vivências com outras lideranças periféricas, que servem como referência e inspiração para o fortalecimento das iniciativas. 

A metodologia que utilizo parte da escuta ativa e da adaptação dos conteúdos à realidade de cada pessoa. Mais do que aplicar ferramentas, trata-se de caminhar junto, respeitando o tempo, as dificuldades e as potências de cada liderança, considerando não só aspectos técnicos, mas também sociais e territoriais.

Minha atuação também é baseada em minha própria trajetória. Antes de ser mentora, fui uma empreendedora apoiada por projetos sociais e passei por processos de mentoria que foram fundamentais no meu desenvolvimento. A partir dessa vivência, comecei a atuar como mentora e consultora de negócios, principalmente com pessoas periféricas e mães solos, assim como eu.

Hoje, além de atuar como assessora de impacto na Casa Hacker, sou consultora de projetos na Aliança Empreendedora e agente de transformação social e cultural no Instituto Doné Eleonora, que também é o meu território. Essa trajetória influencia diretamente a forma como conduzo a assessoria, porque não falo de um lugar distante, eu conheço, vivi e sigo vivendo muitas das realidades que acompanho.

Na prática, assessorar é, antes de tudo, “traduzir”

Momento de tirar dúvidas com as lideranças do Inova Quebrada durante a Formação sobre Modelo C

Traduzir conteúdos técnicos, ferramentas de gestão e conceitos que muitas vezes chegam de forma distante da realidade das lideranças, adaptando a linguagem de acordo com suas necessidades, repertórios e dificuldades.

Nesse sentido, assessorar também é mediar, aproximar conhecimentos que historicamente foram produzidos em linguagens específicas, muitas vezes elitizadas, de pessoas que tiveram esses acessos negados. Essa perspectiva dialoga com as ideias de Paulo Freire, ao compreender o papel de quem educa como alguém que constrói pontes entre saberes e sujeitos, e não apenas transmite conteúdos.

Assim, assessorar é auxiliar no processo de compreensão dos temas trabalhados, adaptando-os de maneira acessível, contextualizada e significativa. É garantir que a liderança não apenas entenda as técnicas e ferramentas apresentadas, mas consiga se apropriar delas e aplicá-las em sua iniciativa, fortalecendo sua atuação e ampliando o impacto no território.

Essa prática também se conecta com uma perspectiva de educação que reconhece o afeto, a escuta e o contexto como elementos centrais no processo de aprendizagem, abordagem que vem sendo fortalecida em diálogos entre os educadores da Casa Hacker sobre como a afetividade transforma a aprendizagem. https://casahacker.org/educacao-e-afetividade-praticas-e-perspectivas-da-educacao-popular-que-se-faz-da-periferia-com-a-periferia/

Momento com o Facilitador na formação sobre Modelo C

Ao promover essas conexões entre prática, teoria e território, a assessoria se consolida como um espaço acolhedor de construção coletiva de conhecimento e transformação social.

As lideranças muitas vezes vem de um cenário de pouca ou nenhuma estrutura e baixa qualidade de ensino o que acaba gerando dificuldade de compreensão de termos técnicos e falta de conhecimento tanto de gestão como do ecossistema ao seu redor. 

E mesmo em meio às dificuldades e a escassez de recursos e insumos, elas desenvolvem ações em seus territórios e acabam desempenhando múltiplas tarefas para que o trabalho seja desenvolvido.

A maior dificuldade identificada é em relação a captação de recursos. Elas têm um objetivo em comum que é alcançar a sustentabilidade financeira. No entanto esse processo envolve etapas que passam a ser conhecidas e estruturadas ao longo da participação nas jornadas formativas tanto do PerifaImpacto como do Inova Quebrada.

É a partir da minha atuação no Programa Fellowship de Lideranças e Empreendedores Sociais Inova Quebrada que se concentram as reflexões que serão aqui apresentadas, considerando os aprendizados construídos no acompanhamento direto das lideranças ao longo do processo.

Durante o processo ao se deparar com o novo surgem muitas dúvidas e principalmente falta de acreditar em sua capacidade de absorver todos os conteúdos e de planejar e se organizar para estar presentes em todas as etapas.

Ao longo do processo, é muito comum que surjam dúvidas, inseguranças e até o sentimento de não dar conta. E é nesse momento que a assessoria deixa de ser apenas técnica e passa a ser também um espaço de fortalecimento. Trabalhamos muito a confiança, o reconhecimento das próprias capacidades e o entendimento de que aprender também faz parte do processo.

Outro ponto central é a presença. Não tem como ser superficial. Estar na assessoria exige envolvimento, organização e, muitas vezes, rearranjos na rotina. Por isso, meu papel também é ajudar a construir caminhos possíveis dentro da realidade de cada pessoa, sem desconsiderar suas vivências.

Também trabalhamos o mapeamento de pontos fortes, fragilidades, habilidades que cada uma tem e o que precisa ser adaptado ou melhorado, os hábitos que precisam ser transformados para melhorar a gestão das iniciativas. Tudo isso de forma contínua, respeitando o tempo de cada liderança.

Eu durante a Trilha Teoria de Mudança e Indicadores

Dentro desse processo fazemos o acompanhamento do PDI (Plano de Desenvolvimento Individual) de cada liderança, considerando as metas estabelecidas desde o início do projeto.

O tempo de cada PDI único e, mesmo com o projeto ainda em andamento, já temos lideranças que concluíram 100%  de suas metas, abrindo espaços para a construção de novos caminhos e possibilidades de desenvolvimento.

Através do MAPEAMENTO DAS AÇÕES NOS TERRITÓRIOS é possível perceber a amplitude das iniciativas desenvolvidas, principalmente após a elaboração do Plano de Fortalecimento e o acesso ao Fundo Inova Quebrada que potencializam a execução das atividades e ampliam de forma significativa o impacto das ações das lideranças em seus territórios.

A assessoria de impacto e a relação construída ao longo do processo

Roda de conversa com as lideranças do Decodifica durante a visita ao Ecossistema Rio de Janeiro

A escuta ativa não é só uma técnica, é uma postura. É estar presente, entender o outro e criar um espaço onde a liderança se sinta segura para falar das dificuldades, das dúvidas e também das conquistas.

Ao longo do acompanhamento, eu me torno uma pessoa de referência. Sou aquela com quem a liderança conversa quando acha que não vai dar conta, mas também aquela com quem ela compartilha quando algo dá certo como a aprovação de um projeto que ela mesma escreveu.

A mentoria, nesse sentido, não é sobre ter todas as respostas. Muitas vezes, é sobre dizer “não sei, mas vamos descobrir juntes”. Essa troca fortalece a confiança e mostra que o processo também é coletivo.

E, talvez uma das coisas mais importantes, seja reforçar que errar faz parte. Que ninguém está sozinho nesse caminho.

A partir da minha experiência, fica evidente que a assessoria de impacto vai muito além de um apoio técnico.

É um processo que envolve escuta, cuidado, troca e construção conjunta. É sobre caminhar junto com as lideranças, respeitando suas trajetórias e fortalecendo suas iniciativas para que possam crescer e se sustentar.

Quando uma liderança se fortalece, o impacto não é individual ele se espalha pelo território.

E é isso que dá sentido ao meu trabalho: ver que, a partir desse acompanhamento, outras pessoas, projetos e realidades também começam a se transformar.

Gerar impacto na vida de outras pessoas e, principalmente nos territórios periféricos, é o meu propósito de vida, impulsionar outras pessoas, projetos e iniciativas é o que me move. Ver que, através do meu trabalho, o impacto gerado por essas lideranças acaba sendo maior que o inicial, me enche de orgulho e de esperança.

Eu acredito muito no poder de transformação da educação empreendedora e do empreendedorismo como fonte de geração de renda.

Assessorar é muito mais do que “dar suporte”, é incentivar pessoas para que atinjam seus objetivos e expectativas, causem mudanças reais nos territórios com autonomia.

*Este artigo utilizou ferramentas de inteligência artificial exclusivamente para correção ortográfica e adequação para as normas ABNT, sem alteração de conteúdo.

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