A inteligência artificial está presente na sociedade atual e, por consequência, tem seu uso disseminado nos diferentes campos da vida. Na educação, seja ela formal ou informal, não é diferente.
Na educação contemporânea, observa-se uma intensificação do uso das tecnologias digitais, com a utilização mais expressiva de plataformas como recursos pedagógicos e, principalmente, das inteligências artificiais, tanto por alunos quanto por educadores. Contudo, torna-se necessário problematizar se a inteligência artificial representa um avanço ou uma ameaça à formação humana, questionando como tudo isso impacta as formas de ensinar, aprender e produzir conhecimento.
Inspirado na perspectiva crítica de Paulo Freire (1996), compreende-se que a prática educativa é situada histórica e politicamente. Por isso, não se pode ocultar a dimensão social, cultural e econômica que o uso da IA traz para a educação. Entendemos que seu uso deve ser mediado: ao mesmo tempo que amplia as possibilidades pedagógicas, deve-se reforçar a importância do uso crítico das IAs e o respeito ao saber do educador: suas práticas, conhecimentos e vivências , evitando que o conhecimento seja reduzido a produtos ou plataformas de ensino.
Neste texto, defende-se o uso consciente e crítico dessas tecnologias, de modo que os alunos não apenas copiem respostas, mas compreendam como esses dados são produzidos, por quem e com quais finalidades. Além disso, é fundamental que saibam como seus dados são coletados e utilizados. Pesquisas como as de Zuboff (2015) mostram que o uso crescente de plataformas na educação gera coleta e monetização de dados, o que a autora denomina capitalismo de vigilância, transformando tudo o que é feito na internet em dados. Na educação, isso se reflete na transformação de docentes e discentes em fontes de dados, trazendo implicações éticas quanto à privacidade, à autonomia e à liberdade pedagógica, além de reduzir a complexidade do processo pedagógico a métricas quantitativas, desconsiderando dimensões qualitativas essenciais da formação humana.
O ensinar e o aprender com IA
A didática, enquanto campo teórico-prático, tem como objeto a organização intencional do processo de ensino-aprendizagem, articulando objetivos, conteúdos, métodos e avaliações. Segundo Libâneo (2013), a didática deve ser compreendida como a mediação entre o conhecimento sistematizado e os sujeitos em formação, considerando suas condições concretas de existência. Nessa perspectiva, a inserção da IA no contexto educacional não pode ser reduzida a uma dimensão instrumental, mas deve ser analisada em sua capacidade de transformar as relações pedagógicas.
Ao pensar nas possibilidades da IA e das tecnologias na educação, percebe-se o potencial que oferecem no acesso à informação, na diversificação das estratégias pedagógicas e na aprendizagem colaborativa.
Lévy (1994) propõe o conceito de inteligência coletiva no ambiente virtual: para o autor, o conhecimento pode ser construído de maneira distribuída em ambientes digitais, favorecendo práticas participativas e interativas. De modo semelhante, Henry Jenkins (2006) enfatiza a emergência de uma cultura da convergência, na qual os sujeitos deixam de ser meros consumidores para se tornarem produtores de conteúdo, o que abre espaço para metodologias que valorizam a autoria, a colaboração e o protagonismo discente. Nesse contexto, abordagens como metodologias ativas e aprendizagem baseada em projetos ganham relevância, pois permitem integrar as tecnologias digitais de forma mais significativa ao processo educativo.
Contudo, Jenkins (2006) alerta para a existência de uma lacuna participativa: as desigualdades de acesso e de letramento digital impedem que todos os estudantes participem em igualdade de condições, o que exige do professor uma atenção pedagógica específica à inclusão digital. Iniciativas como Internet Segura, Inclusão Tech, Bytes da Mudança e Conectar Ideias, todas desenvolvidas pela Casa Hacker, buscam promover a inclusão digital de crianças, jovens e adultos, pois compreendemos que mediações tecnológicas têm o potencial de ampliar o acesso à informação, trazendo novas formas de ser e estar no mundo.

Todas essas formações elaboradas pela Casa Hacker estão alinhadas às recomendações da UNESCO (2019) que defende que o uso da inteligência artificial na educação deve auxiliar na personalização da aprendizagem e na ampliação do acesso ao conhecimento. No entanto, sua implementação deve estar pautada por princípios éticos — como equidade, transparência e proteção de dados , sendo a mediação humana essencial para garantir uma educação inclusiva e de qualidade.
Ainda é preciso considerar que o uso excessivo dessas ferramentas pode gerar pressão por produtividade, gamificação excessiva e uma lógica de desempenho desalinhada aos princípios da educação crítica, somando-se às desigualdades digitais que evidenciam diferenças no letramento digital e na capacidade crítica dos sujeitos.
Nesse sentido, normativas como o ECA Digital (2024) são fundamentais por estabelecer proteções específicas para crianças e adolescentes no ambiente digital, vedando a coleta de dados para fins comerciais sem consentimento e proibindo o uso de dark patterns — padrões de design que manipulam o comportamento dos usuários para maximizar o engajamento.

Em síntese, as IAs configuram um campo de possibilidades e tensões que desafia a educação a se reinventar sem perder seu compromisso com a formação crítica e emancipatória. Se, por um lado, ampliam o acesso ao conhecimento e possibilitam novas formas de interação e aprendizagem, por outro, introduzem dinâmicas de controle, vigilância e padronização que podem comprometer a autonomia pedagógica, o trabalho docente e as formas de aprender. Assim, é preciso que o educador assuma uma postura crítica, orientada pela ética, contextualizada e comprometida com a construção de uma educação democrática e socialmente referenciada.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
JENKINS, Henry. Convergence culture: where old and new media collide. New York: New York University Press, 2006.
LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1994.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2013.
UNESCO. Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence. Paris: UNESCO, 2019.
ZUBOFF, Shoshana. Big Other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization. Journal of Information Technology, v. 30, n. 1, p. 75–89, 2015.