
Muitas vezes, a correria do dia a dia de quem comanda um projeto social na periferia é focada em apagar incêndios. É a entrega da cesta que atrasou, o telhado da sede que precisa de reforma ou o posto de saúde que está sem médico. Resolvemos o problema de forma prática e direta, mas, enquanto estamos no território fazendo o corre, deixamos uma cadeira vazia lá no centro da cidade, onde as leis são feitas e o orçamento é dividido.
Ocupar espaços como os Conselhos Municipais e a Câmara de Vereadores não é virar político, é garantir que quem sente a dor do território seja quem ajude a escolher o remédio. Quando não estamos lá, permitimos que pessoas que nunca pisaram em nossa rua decidam como devemos viver
O que são esses espaços de participação?
Participação social parece um termo técnico difícil, mas significa apenas ter voz nas decisões que afetam sua vida. Em Campinas, existem diversos mecanismos para isso:
- Conselhos Municipais: São grupos formados por representantes do governo e da sociedade civil (como você) para fiscalizar e sugerir onde o dinheiro público deve ser gasto. Existe conselho para quase tudo: Saúde, Habitação, Educação, Juventude e até o Conselho de Hip Hop.
- Conselhos Locais: São instâncias menores, como o conselho do posto de saúde do seu bairro. É o lugar mais próximo para cobrar a direção da unidade.
- Incidência Política: É o nome técnico para o ato de uma liderança levar a realidade da rua para dentro do gabinete. É transformar a reclamação do buraco na rua em uma proposta de melhoria para o bairro todo.
A participação popular em conselhos é a base para a construção de políticas públicas mais assertivas.

Saindo do território para a mesa de decisão
Para que uma liderança deixe de ser apenas executora e torne-se uma Liderança de Transformação, recomenda-se a adoção de passos estratégicos:
Mapeamento de Conselhos Temáticos: Identificar os órgãos relacionados à área de atuação do projeto (esporte, habitação, assistência social).
Identificação e Conexão: Buscar informações em subprefeituras ou unidades de saúde sobre as datas e pautas das reuniões dos conselhos locais.
Gestão Baseada em Dados: Ao ocupar esses espaços, a liderança deve apresentar evidências reais do território, números de famílias atendidas, registros fotográficos e diagnósticos locais.
Fortalecimento de Redes: A atuação coletiva amplia o impacto. Quando múltiplas lideranças ocupam os conselhos simultaneamente, a voz da periferia torna-se um elemento impossível de ser ignorado.
Saia do modo executor(a) e passe para o modo Liderança de Transformação.
Mapeie seu interesse: Se você trabalha com crianças, seu lugar é o CMDCA. Se luta por moradia, é CONCIDADE. Em Campinas, a lista completa fica no site da Secretaria de Gestão e Controle.
Acesse as informações: A maioria dos conselhos tem reuniões abertas.
- Saúde: As reuniões do CMS acontecem mensalmente e o contato é pelo e-mail saude.cms@campinas.sp.gov.br.
- Educação: Fique atento aos editais de chamamento (como o de 2025/2026 para o CME).
Vá com dados, não só com queixas: Documente quantos atendimentos você faz, quais são os maiores gargalos do seu bairro e leve fotos. O saber do território é um dado técnico valiosíssimo.
Não vá sozinho: Forme uma rede com outros líderes do território. Se cinco coletivos ocuparem um conselho, a periferia se torna impossível de ignorar.

O Gargalo da Habitação: Um exemplo de incidência necessária
Um exemplo claro ocorre na luta por moradia digna. Embora o esforço para organizar mutirões seja essencial diante do déficit habitacional brasileiro, que de acordo com os dados oficiais tem diminuído, mas apontam para outro desafio crescente: a moradia inadequada.
Quando a cadeira de decisão está vazia, perde-se a oportunidade de pautar soluções para problemas que a periferia conhece bem, como:
- Inadequação Edilícia: Residências sem infraestrutura sanitária básica ou com adensamento excessivo.
- Inadequação de Infraestrutura: Ausência de saneamento e coleta de lixo eficiente.
- Inadequação Fundiária: Falta de segurança jurídica e posse legal da terra( Como nas áreas verdes do Distrito Campo Grande e Parque Oziel, por exemplo).
A ocupação dos espaços de decisão permite que a liderança extrapole a entrega de unidades habitacionais e passe a exigir urbanização integral e Assistência Técnica (ATHIS).
Conexão com Território e Impacto Social: A voz que se impõe
A cadeira vazia resulta no silenciamento das demandas territoriais. O impacto de uma liderança que ocupa espaços de poder é multiplicado: enquanto no território a ação beneficia grupos específicos, no Conselho Municipal ela tem o potencial de transformar políticas públicas para milhares de cidadãos.
Para o Hub Quebrada em Movimento, a liderança de transformação é aquela que utiliza o conhecimento da territorialidade como uma poderosa ferramenta de gestão. O saber de quem vivencia as lacunas do sistema público precisa migrar das filas de espera para as mesas de planejamento.
A importância do protagonismo na decisão
Soluções que buscam o impacto real precisam unir a mobilização de baixo para cima com políticas públicas estruturantes. A sensação de enxugar gelo muitas vezes decorre da ausência das periferias nos locais onde as estratégias são traçadas.
O Hub Quebrada em Movimento atua no suporte ao desenvolvimento de lideranças, fornecendo as ferramentas necessárias para que a atuação territorial se amplie para a incidência política. A ocupação dos espaços de decisão é compreendida não apenas como um direito, mas como uma estratégia vital para a sobrevivência e o desenvolvimento dos territórios
