A Casa Hacker convidou a Myla Silva, liderança periférica atendida pelo Perifa Impacto, para nos contar um pouco sobre sua atuação no Jardim Lapena e tratar de um fazer cotidiano que julgamos essencial para as iniciativas e projetos sociais que construímos: a Pesquisa Territorial.
Milton Santos, importante geógrafo brasileiro, com trabalho reconhecido no mundo todo, nos propôs uma leitura de território bastante alinhada com as nossas práticas em projetos sociais.
Para começar, o geógrafo construiu uma verdadeira ontologia do território usado, isto é, com mais de 40 livros publicados, se debruçou a compreender o que é o território usado, em sua dimensão vivida. E, para nós, o território também é de suma importância nos projetos sociais, na mobilização político social e na defesa pela cidadania.

Milton Santos defendia que um estudo sobre o território deve, necessariamente, apreender o que é vivido em seu cotidiano. Ele também defendeu que o território é importantíssimo nas compreensões propostas nas Ciências Humanas e, sendo assim, uma instância social.
E, para nós, o território também é de suma importância nos projetos sociais, na mobilização político social e na defesa pela cidadania.
Sobre isso, Myla Silva nos diz muito em seu texto, a seguir:
Entender para Transformar: O Papel da Pesquisa Territorial na Comunidade
Por Myla Silva
O território é o lugar onde as histórias das pessoas se encontram. É onde acontecem diferentes vivências e onde aprendemos a viver em sociedade. No território, entendemos seus limites, o que afeta aquele espaço e como as políticas públicas influenciam o dia a dia. Também é ali que começamos a compreender qual é o nosso papel dentro da comunidade.
A pesquisa territorial serve justamente para isso: entender como funciona a comunidade, como nos aproximamos das pessoas e como podemos pensar em projetos que realmente façam sentido naquele lugar. Ela é uma base importante para identificar as necessidades reais da população, as principais dificuldades do bairro e o que pode ser melhorado.

Fazer uma pesquisa territorial é estar presente: participar de reuniões de bairro, ações comunitárias, festas, passeios e tudo o que faz parte daquele território. É assim que as pessoas passam a te reconhecer, confiar em você e abraçar os projetos que você apresenta.
Para ter uma boa pesquisa territorial, é essencial fazer parte da comunidade e viver o que ela tem a oferecer. Só assim é possível enxergar com clareza o que realmente acontece. Antes de oferecer qualquer projeto, ação ou curso, é fundamental conhecer a comunidade. Não faz sentido chegar com algo pronto sem saber quais são as necessidades daquele lugar.
Cada território tem suas particularidades e desafios. O que funciona em um bairro pode não funcionar em outro. Por isso, entender o que aquele território precisa é o primeiro passo para pensar no que pode ser ofertado, seja curso, emprego, oficina, formação ou qualquer outra oportunidade. Sem essa pesquisa inicial, não é possível definir as reais necessidades das pessoas.

Hoje faço parte do Comitê de Artistas do Território, e apesar de já ter uma noção do Jardim Lapena, eu não tinha dados concretos sobre como ajudar. Por isso comecei a participar com mais frequência das reuniões de plano de bairro, reuniões de moradores e outras ações comunitárias. Mesmo quando não era para apresentar nada, eu estava ali para conversar com as pessoas e com as lideranças comunitárias.

O diálogo com as lideranças é fundamental, porque são elas que convivem todos os dias com os desafios da comunidade. Essas pessoas sabem o que funciona, o que não funciona, o que falta e quais são as principais necessidades. Ter uma relação aberta e respeitosa com elas é crucial para desenvolver uma boa pesquisa territorial. Além disso, o diálogo com o poder público também é importante, pois eles possuem dados atualizados e podem ajudar na construção de propostas para o território.
Para finalizar, quero dizer que quem vive na comunidade, seja morador ou participante de projetos sociais,deve estar por dentro do que acontece. Participar das reuniões de bairro, associação de moradores e ações comunitárias permite enxergar tanto os problemas quanto as coisas boas que chegam ao território. Ter uma boa relação com as lideranças facilita o contato com moradores e ajuda na aproximação com pessoas que podem se desenvolver e buscar novas oportunidades.
E, acima de tudo, escutar a comunidade é essencial. Muitas vezes, as pessoas só precisam ser ouvidas. Isso já cria confiança e fortalece laços importantes. Portanto, estejam presentes, dialoguem, escutem e observem o que está acontecendo no território de vocês.
Sobre Myla Silva
Atriz, de 29 anos, mãe de Eva Catarina, de 09 anos. Nascida na cidade de São Luís/Maranhão. Participou do Grupo de Teatro Independente no Maranhão, estudou na Escola de Música da Polícia Militar Instrumental. Em 2012, se mudou para São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo/SP, integrou junto ao núcleo teatral: Cia Utilidade Pública, com a peça: Dia Útil. Circulando pela cidade de São Paulo: Teatro Flávio Império, Aldeia Satélite Espaço Cultural, Festival do Livro e Literatura de São Miguel e praças públicas.
Uma das idealizadoras do grupo de performance/cênica/poética PARDOnizadas com a ação Sangue Sujo, criado no ano de 2017. Em 2022, pelo Grupo PARDOnizadas iniciou a perfomance PILARES SESSION é um compilado harmônico inédito que mescla a declamação, o canto e a performance cênica. O trabalho possui como característica central a linguagem da música. Atualmente trabalha como mentora social na ONG Gerando Falcões com o Projeto Decolagem, fazendo acompanhamento com famílias de alta vulnerabilidade, traçando metas e objetivos em busca de uma vida digna.
No ano de 2021, com o grupo PARDOnizdas iniciou o projeto Entre Becos e Vielas, com o apoio e incentivo financeiro da ONG Fundação Tide Setubal, que nasceu da vontade de levar arte, cultura e lazer para a comunidade, com foco nas crianças e adolescentes.
Referências:
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed., 2. reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. (Coleção Milton Santos; 1).