Docência compartilhada: O que eu aprendi ensinando em conjunto

Não é de hoje que quem trabalha com educação, principalmente quem está na linha de frente das salas de aulas e espaços pedagógicos, sabe dos desafios que a profissão de educador tem. Eles abrangem a falta de estrutura, salários baixos, pouca valorização, desinteresse dos alunos, e muitas outras variáveis que vão surgindo enquanto estamos tentando aplicar nossas metodologias e praticar nossa vontade de compartilhar conhecimento. 

Os contextos educacionais são muito diversos: diferentes tipos de escolas, OSCs, instituições culturais, variações nos número de alunos, fatores geográficos, sociais, políticos; todos afetando diretamente o decorrer de uma aula e como se dá a dinâmica entre um educador e um aluno. Entretanto, independente da escola ou instituição, dar aulas é sempre um desafio e precisa não só de jogo de cintura, flexibilidade e vontade, como também de pessoas ao nosso redor que nos ajudem a seguir e fazer nosso trabalho. 

Livros como Pedagogia da Autonomia (1996) de Paulo Freire, Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade (1994) de Bell Hooks, ou Vence-demanda: educação e descolonização (2021) de Luiz Rufino, falam sobre a importância da sensibilidade para com os alunos, saber contextualizá-los, nos aproximar, e construir um ambiente pedagógico seguro e acolhedor que dê vontade de aprender, assim como dê vontade de ensinar. Eles também falam sobre como é importante que se estabeleça uma troca dinâmica em que os papéis educador/aluno sejam maleáveis e permitam que nós, enquanto professores, também consigamos crescer e nos manter motivados. 

Mas, diante de todos os desafios que atravessam o cotidiano educativo, como criar um ambiente de pertencimento que faça sentido tanto para nós, educadores, quanto para os estudantes?

Turma do HackerClubes Sumaré 2026 em aula com a professora Pamela Leite.

Esse é o tipo de pergunta que poderia surgir na sala dos professores enquanto tomamos nossos cafézinhos, em uma mesa de bar na sexta feira pós expediente ou mesmo em uma discussão na aula de licenciatura de uma universidade. E há algo de muito significativo nesses momentos porque é justamente ao compartilhar essa pergunta que começamos, quase sem perceber, a construir respostas para ela. É pela escuta e pela troca com outras pessoas que compartilham contextos semelhantes que aprendemos novas estratégias para seguir com nosso trabalho, elaborar os desafios que nos atravessam e sustentar nossa motivação. Estar em coletivo nos permite não apenas dividir experiências, mas também ressignificar acontecimentos, rever práticas e imaginar outras possibilidades para a docência.

Falo isso não apenas como uma observação respaldada na teoria, mas como algo que atravessa minha própria prática. Atuo na educação há quase dez anos e estou na Casa Hacker desde 2024, e ao longo dessa trajetória sempre tive como norteador buscar uma educação que fizesse sentido para quem está envolvido nela, sejam os alunos ou os professores. Um exemplo concreto disso está na minha experiência lecionando conjuntamente com outras professoras nos projetos de educação STEAM da Casa Hacker: durante um ano e meio atuei ao lado da professora Aliene Villaça com as alunas do projeto Minas em Tech e, atualmente, trabalho junto à professora Pamela Leite na turma do HackerClubes. 

Os dois projetos acontecem em escolas da rede pública de ensino da cidade de Sumaré, com turmas de aproximadamente vinte estudantes do ensino médio. As aulas são estruturadas a partir da abordagem STEAM, integrando conteúdos relacionados à ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática. Entre os temas desenvolvidos ao longo do percurso estão modelagem e impressão 3D, programação, eletrônica, inteligência artificial e realidade virtual. Esses conhecimentos são trabalhados de forma interdisciplinar por meio da aprendizagem baseada em projetos, metodologia em que os estudantes desenvolvem seus interesses e habilidades e, ao final do processo, elaboram coletivamente seus próprios projetos.

Desde o início, buscamos construir com os estudantes uma outra perspectiva de aula, propondo um espaço educativo em que a aprendizagem acontece por meio da troca, da escuta e da experimentação coletiva. Mais do que transmitir conteúdos técnicos, o objetivo é criar um ambiente em que o conhecimento seja construído de forma compartilhada, leve e significativa. Essa dinâmica só se sustenta a partir da relação de confiança estabelecida com os alunos ao longo do processo, mas entendemos também que esse vínculo é diretamente atravessado pela parceria construída entre nós, professoras.

grupo de quatro alunas sentadas em sala de aula com seus computadores. Na mesa na frente delas, além dos computadores vemos peças de impressão 3D amarelas. Entre as alunas está sentada a Professora do grupo. Todas estão sorrindo.
Professora Aliene Villaça e seu grupo de alunas montando os projetos finais da turma do Minas em Tech 2025

A relação entre as educadoras é percebida pelos estudantes e influencia diretamente a forma como eles ocupam esse espaço. Por isso, buscamos construir entre nós uma relação horizontal, baseada no diálogo, na colaboração e no reconhecimento de que nenhuma ocupa um lugar de maior importância ou é detentora exclusiva do conhecimento. É natural que, em determinados momentos, uma tenha maior domínio técnico sobre um conteúdo específico, mas isso não impede que o planejamento seja coletivo, nem que a condução da aula seja compartilhada. Da mesma forma, os estudantes são incentivados a se relacionar com ambas, trazendo dúvidas, observações e contribuições sem que haja uma centralização da fala ou do saber.

Também o planejamento dos encontros nasce desse exercício de colaboração. As reuniões, o desenvolvimento dos conteúdos e a organização das atividades são definidos a partir de acordos construídos entre nós, buscando atender tanto às necessidades pedagógicas do curso quanto às percepções que cada uma traz da sala de aula. O planejamento é continuamente ajustado com base no envolvimento dos estudantes, nas necessidades de retomada de determinados conteúdos ou na abertura para novas propostas que surgem ao longo do processo.

Enquanto equipe, mantemos uma prática constante de troca sobre o desenvolvimento dos encontros, compartilhando impressões sobre o que funcionou, o que pode ser revisto e como cada atividade reverberou na turma. Dividimos observações sobre os estudantes, alinhamos expectativas e buscamos construir formas de acolher e incentivar cada participante. Para que isso aconteça, a comunicação entre nós precisa ser clara, respeitosa e atravessada por escuta. É esse diálogo contínuo que possibilita alinhar as aulas e sustentar o ambiente criativo e de aprendizagem que buscamos.

Além da comunicação, outro aspecto fundamental é a sensibilidade para conhecer e reconhecer quem está ao nosso lado. Compreender que a vida atravessa o trabalho (que demandas, cansaços, desejos e limitações extrapolam o espaço da sala de aula) é parte essencial desse processo. Contextualizar a colega com quem se trabalha, respeitando seus limites e reconhecendo seus modos de atuação, permite construir relações mais cuidadosas e honestas. A partir dessa abertura, os laços de confiança vão se fortalecendo aos poucos, transformando a parceria profissional também em vínculo afetivo. E é justamente nesse encontro entre colaboração, confiança e cuidado que o trabalho coletivo se torna mais potente, efetivo e satisfatório.

Sabemos que criar ambientes de pertencimento na educação não é tarefa individual. Exige estrutura, tempo e condições dignas de trabalho que ainda faltam para a maioria dos educadores desse país. Mas por experiência própria, se for possível não trabalharmos sozinhos as coisas tendem a ficar mais fáceis. A pergunta sobre como construir espaços que façam sentido para quem ensina e para quem aprende não tem uma resposta direta, mas a vivência que tenho tido com aquilo que tenho chamado de docência compartilhada me mostra que ela começa a ser respondida quando escolhemos caminhar juntos. Enquanto esperamos as condições ideais, que talvez demorem muito ou nem cheguem, é na parceria, na escuta e no cuidado mútuo que encontramos força e razões para continuar.

Foto de comemoração da formatura da turma do Minas em Tech 2025. A imagem registra um pouco da alegria de acompanhar essas meninas ao longo de todo o ano e de construir esse percurso coletivamente, junto à professora Aliene Villaça e à gerente de projetos Amanda, que, embora não atue diretamente como educadora, também é peça fundamental para que tudo aconteça.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

RUFINO, Luiz. Vence-demanda: educação e descolonização. Rio de Janeiro: Mórula, 2021.

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