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Educação STEAM

Mobilização e a importância do ensino STEAM localizado

Pamela Moraes

Casa Hacker

publicado 31 de julho de 2026tempo de leitura ~5 min
Mãos de duas jovens montam um circuito simples com fios vermelho e preto, tesoura, fita isolante e prendedor de madeira sobre a mesa.

Este texto busca discutir sobre a importância de localizarmos o desenvolvimento das atividades e discutir como as mobilizações, atividades de chamamento para inscrição nos Hackerclubes, são mais do que uma forma de promover o projeto e acabam por oferecer aos jovens um espaço de primeiro contato com a educação STEAM, incentivando o desenvolvimento deles e mostrando que outro ensino é possível

O contexto das atividades

A Casa Hacker atua há muitos anos com o desenvolvimento de iniciativas voltadas para comunidades periféricas, oferecendo um espaço onde desigualdades sociais podem ser questionadas e dribladas com inovação e protagonismo. O projeto Hackerclubes é uma dessas iniciativas, em que vamos até escolas em áreas periféricas no interior de São Paulo e oferecemos vivências em tecnologia para jovens. Nesse processo discutimos principalmente sobre segurança digital, impressão 3D, programação, eletrônica e cidadania.

Sou uma das professoras STEAM do projeto Hackerclubes desde o meio de abril deste ano, atuando em dupla em uma escola estadual de Sumaré. Nesse processo, acabei me deparando com uma turma já em andamento e todos os desafios que essa mudança trouxe, para mim e para os adolescentes. Já tive experiências anteriores com ensino de arte e tecnologia em espaços não-formais, mas nenhuma me proporcionou a oportunidade de adentrar um espaço formal como a escola de ensino básico com uma proposta diferente de ensino. Nesse processo entendi que ensinar tecnologia e mostrar possibilidades para o futuro dos jovens também envolve entender o território que os cerca e quais as suas dinâmicas.

STEAM e sua territorialização

Quando falamos e pesquisamos sobre a metodologia STEAM, frequentemente encontramos ideias e atividades desenvolvidas para funcionar apenas em ambientes altamente equipados e isolados da realidade social. Territorializar o STEAM significa desconstruir essa visão utópica e entender que a inovação acontece quando integramos a tecnologia, dentro de suas possibilidades, com a vida real dos jovens. Em uma escola estadual periférica, ensinar tecnologia não é apenas ensinar conceitos técnicos, mas traduzir os conhecimentos e se adequar à realidade daquela comunidade. Isso não quer dizer que devemos nos conformar ou limitar nossas atividades, mas que é preciso entender o contexto em que estamos para mostrar as diversas possibilidades que a tecnologia nos oferece.

Esse processo de territorialização exige que o ensino seja construído com os estudantes, de forma receptiva, reconhecendo de que forma as tecnologias já atravessam a vida desses jovens. Nosso papel como educadoras é escutar e entender como criar pontes entre os conhecimentos que eles já têm e as ferramentas necessárias para que eles sejam protagonistas no processo de aprendizagem STEAM.

Oficina de mobilização em Sumaré

A mobilização na prática

É a partir dessa perspectiva que a mobilização se torna uma etapa pedagógica em si, e não um mero ato de divulgação. Neste semestre vivi minha primeira mobilização, momento em que vamos até a escola e convidamos os alunos a participarem de uma oficina curta envolvendo conhecimentos que serão aprofundados durante o semestre nos Hackerclubes. Durante a atividade apresentamos o projeto, falamos sobre a atuação da Casa Hacker, contamos sobre o que os colegas que já participaram desenvolveram durante a participação e convidamos os presentes a realizarem a inscrição para a próxima turma.

Pensando na necessidade de uma atividade lúdica que chamasse a atenção, tivesse uma duração mais curta e pudesse ser desenvolvida sem internet (pensando em questões de estrutura da escola), levamos para a escola uma atividade com prendedores de roupa de madeira, LED e bateria, em que os próprios estudantes montaram um circuito em que ao apertar o prendedor uma corrente era fechada e o LED acendia.

O processo foi desafiador para as turmas, mas conseguimos apoiar os jovens no processo e todas as duplas participantes saíram com o circuito em funcionamento. A atividade também acaba mostrando para os jovens que muitas vezes o processo de aprender é frustrante, mas que nós estamos juntos nesse caminho, e que o aprendizado sobre tecnologia é possível (e divertido, também). Para aproveitar a animação da oficina, disponibilizamos computadores para que os jovens pudessem realizar a inscrição no projeto, mas percebemos uma outra questão: muitos dos adolescentes, mesmo que com idades em torno de 14 e 15 anos, já trabalham no contra-turno. Nessas situações em que a vontade de aprender esbarra na necessidade do trabalho, nos oferecemos para ficar à disposição nos dias em que estamos na escola e incentivar que eles busquem uma oportunidade futura para serem alunos do projeto.

Oficina de mobilização em Sumaré

Possibilidades e futuros possíveis

Muitos desses adolescentes já assumem responsabilidades de adultos, dividindo a rotina escolar com emprego informal, jovem aprendiz e/ou cuidado da casa e irmãos. É muito frustrante ver um jovem querer acessar o projeto e ser impossibilitado pela necessidade imediata de sobrevivência. Essa situação mostra que a desigualdade é muito profunda e ainda precisa de muito trabalho coletivo para ser vencida.

Trazer os Hackerclubes para a rede pública de ensino acaba sendo um exercício constante de equilíbrio entre a descoberta e a consciência das limitações impostas pelo território. Mesmo para aqueles que não puderam se matricular devido às limitações da rotina, essa experiência da mobilização não foi perdida, ela pode ter se tornado o entendimento de ser capaz de criar com tecnologia. O ensino STEAM em contextos localizados cumpre seu papel quando mostra aos jovens da periferia que o futuro tecnológico não deve ser um privilégio de poucos, mas um direito que também pertence a eles.

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Como citar esta publicação.

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