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Autoconhecimento na Prática: quando conhecimento e território se encontram

A trajetória de Karla Alexandra mostra como formação, acesso a recursos e experiência no território podem transformar conhecimento em metodologia, impacto e atuação profissional.

Celso Niger

Assessor de Impacto Socioambiental

publicado 23 de outubro de 2026tempo de leitura ~10 min
Karla Marques posa para uma fotografia em frente a um balcão de exposição durante o Campinas Innovation Week 2026. Ela veste uma camisa em tom terracota, calça bege e crachá do evento. Ao fundo, aparecem painéis coloridos com as marcas de organizações e iniciativas participantes.

O projeto Autoconhecimento na Prática nasceu de uma experiência profundamente pessoal de Karla Alexandra Marques. Antes de pensar em uma metodologia, em aulas ou em um projeto social, ela buscava compreender o que estava acontecendo consigo mesma.

Durante um período de depressão, Karla sentiu que as respostas que encontrava não eram suficientes para ajudá-la a compreender as dimensões emocionais daquele momento. Foi então que começou a buscar outras formações, entre elas uma pós-graduação em Programação Neurolinguística, além de estudos em terapia livre e antropologia filosófica.

Essa busca começou como uma tentativa de se entender, mas logo ganhou outra dimensão.

“Eu fui buscando e cheguei, em dado momento, à conclusão de que não era para mim sozinha isso. Como eu podia ajudar outras mulheres a passar por aquilo?”

Foi dessa pergunta que começou a nascer uma proposta de compartilhar conhecimento com pessoas que dificilmente teriam acesso a esse tipo de formação.

Karla participando de uma das aulas da Jornada Formativa no Hub Quebrada em Movimento

Quando o acesso ao conhecimento também é uma questão de território

Desde o início, Karla tinha clareza sobre quem gostaria de alcançar.

Os cursos e formações que ela fazia tinham custos elevados. Quando começou a realizar atendimentos supervisionados, percebeu que muitas mulheres da periferia simplesmente não conseguiam acessar esse tipo de cuidado. Para ela, essa barreira aparece de forma muito concreta na vida cotidiana.

“Se a mulher tem que escolher entre comprar um arroz, comprar um leite e a terapia, ela vai escolher comprar esse leite e comprar esse arroz, porque ela está sempre cuidando do outro.”

A reflexão sobre a economia do cuidado foi importante para definir o público que Karla queria alcançar. Ela começou atendendo principalmente mulheres pretas da periferia e percebeu que muitas discussões sobre autoconhecimento, limites, emoções e desenvolvimento pessoal ainda chegavam pouco a esses espaços.

A partir daí, começaram as primeiras palestras. Karla reunia diferentes ferramentas que havia aprendido e buscava traduzi-las para uma linguagem mais próxima das pessoas. O desafio não era apenas compartilhar conhecimento, mas torná-lo compreensível, útil e aplicável à vida cotidiana.

Campo Grande: o território que abriu as portas

A escolha do Distrito do Campo Grande para desenvolver o projeto não foi casual.

A relação de Karla com o território começou há mais de 20 anos, quando chegou a Campinas. Depois de um breve período na região central, foi morar no Valença, no Campo Grande. Naquele momento, também realizava trabalho de base no Campo Belo como agente de desenvolvimento local e economia solidária.

Com o passar do tempo, essa relação foi se aprofundando. Suas primeiras clientes eram, em grande parte, mulheres do Campo Grande. Também foi no território que encontrou espaços para realizar palestras e atividades sobre autoconhecimento.

“O Campo Grande foi o primeiro território que abriu as portas para receber as minhas palestras falando sobre autoconhecimento.”

Essa relação ajuda a entender por que o primeiro ciclo do Autoconhecimento na Prática foi realizado justamente ali.

Karla Ministrando uma das aulas no Hub quebrada em Movimento

Da palestra à construção de uma metodologia própria

As primeiras atividades de Karla eram palestras. A mudança começou quando ela participou do PerifaImpacto, onde passou a enxergar aquela atuação também como uma possibilidade de negócio de impacto. Até então, o trabalho social aparecia para ela principalmente associado ao voluntariado. Depois, sua participação nas trilhas formativas do Hub Quebrada em Movimento ajudou a organizar melhor aquilo que já fazia.

“Nas trilhas formativas eu fui entendendo o meu negócio como negócio de impacto, fui entendendo como um projeto. E aí desenvolvi a metodologia Autoconhecimento na Prática.”

A metodologia passou a reunir conhecimentos de Programação Neurolinguística, gestão de pessoas, antropologia filosófica e terapia livre, organizados para ajudar cada participante a refletir sobre personalidade, valores, princípios, limites e formas de aprendizagem.

O diferencial estava justamente na prática. Não se tratava de um processo terapêutico, mas de uma formação capaz de oferecer ferramentas para que cada pessoa pudesse observar a si mesma e aplicar esses aprendizados em situações concretas do cotidiano.

O Fundo da Quebrada como espaço de experimentação

Depois de passar pelas trilhas formativas, Karla estruturou o projeto e o inscreveu no edital do Campo Grande. Com o apoio do Fundo da Quebrada, conseguiu realizar a primeira experiência da metodologia dentro do próprio Hub Quebrada em Movimento.

“Eu rodo o primeiro aí dentro do Hub Quebrada em Movimento, com o apoio do edital. Dá supercerto. A gente vê que é possível, sim, rodar. E aí faz a validação do trabalho.”

O projeto realizou as quatro aulas previstas. Foram utilizadas ferramentas físicas e digitais, como papel, canetas, cadernetas, apresentações, QR Codes e nuvens de palavras, buscando atender diferentes formas de aprendizagem. O relatório também registra participação ativa do grupo durante os encontros.

Mais do que financiar uma atividade, o Fundo permitiu testar uma metodologia que até então existia como uma construção em desenvolvimento. Esse tipo de apoio cria uma etapa importante para iniciativas territoriais: a possibilidade de colocar uma ideia em prática, observar como ela funciona, avaliar os resultados e identificar o que precisa ser ajustado.

Karla Ministrando uma das aulas no Hub quebrada em Movimento

A metodologia combinou momentos de conversa, escrita, reflexão individual, atividades visuais e dinâmicas práticas.

As fotos do relatório mostram participantes reunidos ao redor das mesas, interagindo durante os exercícios e compartilhando momentos de construção coletiva ao longo das quatro aulas.

Para Karla, compreender como cada pessoa aprende também faz parte do processo de autoconhecimento.

“A gente leva o curso para a pessoa se entender nessa sua essência, qual a melhor forma de aprendizagem, se a pessoa é visual, se ela é cinestésica, se ela é auditiva.”

Ela também percebeu que algumas ferramentas ultrapassavam a experiência individual. Mães participantes começaram a observar de outra forma como seus filhos aprendiam e podiam levar parte dessas referências para dentro de casa.

participantes sentados  ao redor da mesa realizando exercícios.

O que as avaliações mostraram

Ao final do percurso, as avaliações apontaram mudanças positivas na percepção das pessoas participantes.

Os relatos indicaram aumento da autoconfiança, maior capacidade de tomada de decisão e mais clareza para enfrentar situações do cotidiano. Também foram percebidos avanços na capacidade de reconhecer emoções e compreender melhor a relação entre comportamentos e ambiente.

Outro resultado importante apareceu na forma como as pessoas passaram a observar suas próprias escolhas.

As avaliações indicaram uma percepção maior sobre comportamentos antes realizados de maneira automática e uma tendência a tomar decisões de forma mais consciente.

Todos os participantes que responderam à avaliação demonstraram interesse em uma segunda etapa da formação, e a maioria atribuiu a nota máxima ao curso.

Os resultados ajudaram a confirmar algo que Karla já percebia durante sua própria trajetória: quando esse tipo de conhecimento é traduzido para uma linguagem acessível, ele pode se tornar uma ferramenta concreta de transformação.

foto coletiva do encerramento da turma.

Os desafios também ajudaram a redesenhar o projeto

A experiência também trouxe aprendizados importantes para as próximas edições.

A comunicação teve alcance menor do que o esperado. Embora a divulgação tenha ocorrido pelo Instagram, LinkedIn, WhatsApp e por panfletos distribuídos no Campo Grande, a quantidade de inscrições ficou abaixo da expectativa inicial.

Outro ponto percebido durante a execução foi a necessidade de oferecer suporte para pessoas com filhos. A ausência de alguém responsável pelo cuidado infantil dificultou a participação de alguns integrantes. Essa mesma questão apareceu posteriormente nas avaliações, com a sugestão de oferecer recreação para crianças em futuras turmas.

Também surgiram sugestões como criar um grupo de WhatsApp entre participantes, realizar mais atividades coletivas e disponibilizar os materiais trabalhados durante as aulas.

Esses retornos passaram a fazer parte da própria evolução da metodologia.

De beneficiária a gestora de projetos

O Autoconhecimento na Prática representa apenas uma etapa de uma trajetória mais longa.

Karla passou por experiências no movimento social, pelo mundo corporativo, por formações em desenvolvimento humano e por programas como o PerifaImpacto, as trilhas formativas e outros processos dentro do Quebrada em Movimento.

Durante muitos anos, ela não reconhecia seu trabalho social como algo que pudesse também ser remunerado.

Essa percepção estava ligada à própria história familiar. Karla cresceu em uma família periférica onde ajudar outras pessoas fazia parte do cotidiano. Ela lembra da avó dividindo alimentos com quem procurava ajuda no final da feira, dos tios doadores de sangue e da mãe atuando em ações de assistência social e cuidados comunitários.

Por muito tempo, essa referência fez com que trabalho social e voluntariado parecessem quase inseparáveis.

A mudança aconteceu aos poucos.

“Tudo é uma construção. Precisei passar pelas jornadas para entender o meu negócio, para entender que eu causava impacto. Depois, para entender que um projeto social pode ser um negócio de impacto socioambiental. Depois, para entender que eu posso ser remunerada por isso.”

Hoje, Karla ocupa outra posição nesse mesmo ecossistema. Depois de passar por processos como beneficiária, desenvolver sua própria metodologia, acessar recurso e executar um projeto, passou a atuar profissionalmente na gestão de projetos dentro do Hub Quebrada em Movimento.

A experiência que ela acumulou no mundo corporativo, principalmente em gestão de pessoas e liderança, passou a dialogar com a trajetória construída no terceiro setor.

Karla e a equipe do Hub, entregando o certificado para uma das participantes da jornada formativa.

Quando uma trajetória também se torna referência

Para Karla, tornar sua trajetória visível também passou a ter outro significado. Durante muito tempo, ela se incomodava quando alguém dizia que ela era uma referência. Até que uma conversa a fez olhar para isso de outra maneira.

“As pessoas precisam ver que é possível para que elas queiram estar também.”

Sua própria experiência passou então a funcionar como uma possibilidade de identificação para outras mulheres.

“Se eu consegui fazer isso tudo com três filhos pequenos, morando numa periferia, morando no território, sendo uma mulher preta, é possível, sim, que outras pessoas consigam.”

Essa talvez seja uma das dimensões mais importantes dessa trajetória. Não se trata apenas de uma mudança profissional individual, mas de tornar visível um caminho possível para outras pessoas que já atuam em seus territórios, possuem conhecimentos e lideranças reconhecidas, mas ainda não enxergam o trabalho social como uma possibilidade profissional.

Conhecimento que circula

Existe uma ideia que atravessa toda a história de Karla: conhecimento não deveria parar em quem teve a oportunidade de acessá-lo.

“O conhecimento, para mim, é para ser compartilhado. Eu preciso passar o que eu aprendo para os próximos.”

Essa lógica ajuda a conectar diferentes momentos da sua trajetória.

Ela buscou conhecimento para compreender a própria experiência. Depois começou a compartilhá-lo com outras mulheres. Transformou esse repertório em palestras, estruturou uma metodologia, testou o projeto com apoio do Fundo da Quebrada e, mais tarde, passou a utilizar também sua experiência para acompanhar outras lideranças e iniciativas.

O Autoconhecimento na Prática é, portanto, mais do que um curso de quatro encontros. Ele representa um momento em que trajetória pessoal, conhecimento técnico, território, formação e oportunidade de experimentar uma ideia se encontraram.

E esse processo continua.

O próximo passo de Karla é seguir aprendendo, aprofundar sua relação com a academia e aproximar ainda mais o conhecimento produzido nesses espaços das experiências construídas nos territórios.

“O meu objetivo agora é levar o território para dentro da academia. E continuar fazendo os meus trabalhos de gestão, porque eu sou apaixonada pelo negócio de impacto. Ajudar as pessoas a terem suas realidades transformadas é gratificante.”

Karla no stand da Casa Hacker no Campinas Innovation Week 2026

AutoconhecimentoMulheresQuebrada em MovimentoFundo da QuebradaEmpreendedorismo de impacto

Como citar esta publicação

Se você usar este texto em trabalho acadêmico, jornalístico ou em outra publicação, peço a gentileza de incluir a citação completa:

NIGER, Celso. Autoconhecimento na Prática: quando conhecimento e território se encontram. Campinas: Associação Casa Hacker, 2026. Disponível em: https://casahacker.org/publicacoes/autoconhecimento-na-pratica-quando-conhecimento-e-territorio-se-encontram/. Acesso em: 30 out. 2026.

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