A Casa Hacker convidou a Myla Silva, liderança periférica atendida pelo Perifa Impacto, para nos contar um pouco sobre sua atuação no Jardim Lapena e tratar de um fazer cotidiano que julgamos essencial para as iniciativas e projetos sociais que construímos: a Pesquisa Territorial.
O território segundo Milton Santos
Milton Santos, importante geógrafo brasileiro, com trabalho reconhecido no mundo todo, nos propôs uma leitura de território bastante alinhada com as nossas práticas em projetos sociais.
Para começar, o geógrafo construiu uma verdadeira ontologia do território usado, isto é, com mais de 40 livros publicados, se debruçou a compreender o que é o território usado, em sua dimensão vivida. E, para nós, o território também é de suma importância nos projetos sociais, na mobilização político social e na defesa pela cidadania.

Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977 | Crédito: Foto: Reprodução/Site Milton Santos
Milton Santos defendia que um estudo sobre o território deve, necessariamente, apreender o que é vivido em seu cotidiano. Ele também defendeu que o território é importantíssimo nas compreensões propostas nas Ciências Humanas e, sendo assim, uma instância social.
E, para nós, o território também é de suma importância nos projetos sociais, na mobilização político social e na defesa pela cidadania.
Sobre isso, Myla Silva nos diz muito em seu texto, a seguir:
Entender para Transformar: O Papel da Pesquisa Territorial na Comunidade
Por Myla Silva
O território é o lugar onde as histórias das pessoas se encontram. É onde acontecem diferentes vivências e onde aprendemos a viver em sociedade. No território, entendemos seus limites, o que afeta aquele espaço e como as políticas públicas influenciam o dia a dia. Também é ali que começamos a compreender qual é o nosso papel dentro da comunidade.
A pesquisa territorial serve justamente para isso: entender como funciona a comunidade, como nos aproximamos das pessoas e como podemos pensar em projetos que realmente façam sentido naquele lugar. Ela é uma base importante para identificar as necessidades reais da população, as principais dificuldades do bairro e o que pode ser melhorado.

Fazer uma pesquisa territorial é estar presente: participar de reuniões de bairro, ações comunitárias, festas, passeios e tudo o que faz parte daquele território. É assim que as pessoas passam a te reconhecer, confiar em você e abraçar os projetos que você apresenta.
Para ter uma boa pesquisa territorial, é essencial fazer parte da comunidade e viver o que ela tem a oferecer. Só assim é possível enxergar com clareza o que realmente acontece. Antes de oferecer qualquer projeto, ação ou curso, é fundamental conhecer a comunidade. Não faz sentido chegar com algo pronto sem saber quais são as necessidades daquele lugar.
Cada território tem suas particularidades e desafios. O que funciona em um bairro pode não funcionar em outro. Por isso, entender o que aquele território precisa é o primeiro passo para pensar no que pode ser ofertado, seja curso, emprego, oficina, formação ou qualquer outra oportunidade. Sem essa pesquisa inicial, não é possível definir as reais necessidades das pessoas.

Na imagem um cartaz em estilo lambe-lambe escrito: Lapena é um território: Dinâmico, Periférico, Comunitário, Político. Foto de arquivo pessoal.
Presença e diálogo no Lapena
Hoje faço parte do Comitê de Artistas do Território, e apesar de já ter uma noção do Jardim Lapena, eu não tinha dados concretos sobre como ajudar. Por isso comecei a participar com mais frequência das reuniões de plano de bairro, reuniões de moradores e outras ações comunitárias. Mesmo quando não era para apresentar nada, eu estava ali para conversar com as pessoas e com as lideranças comunitárias.

O diálogo com as lideranças é fundamental, porque são elas que convivem todos os dias com os desafios da comunidade. Essas pessoas sabem o que funciona, o que não funciona, o que falta e quais são as principais necessidades. Ter uma relação aberta e respeitosa com elas é crucial para desenvolver uma boa pesquisa territorial. Além disso, o diálogo com o poder público também é importante, pois eles possuem dados atualizados e podem ajudar na construção de propostas para o território.
Para finalizar, quero dizer que quem vive na comunidade, seja morador ou participante de projetos sociais,deve estar por dentro do que acontece. Participar das reuniões de bairro, associação de moradores e ações comunitárias permite enxergar tanto os problemas quanto as coisas boas que chegam ao território. Ter uma boa relação com as lideranças facilita o contato com moradores e ajuda na aproximação com pessoas que podem se desenvolver e buscar novas oportunidades.
Escutar a comunidade
E, acima de tudo, escutar a comunidade é essencial. Muitas vezes, as pessoas só precisam ser ouvidas. Isso já cria confiança e fortalece laços importantes. Portanto, estejam presentes, dialoguem, escutem e observem o que está acontecendo no território de vocês.
Sobre Myla Silva

Atriz, de 29 anos, mãe de Eva Catarina, de 09 anos. Nascida na cidade de São Luís/Maranhão. Participou do Grupo de Teatro Independente no Maranhão, estudou na Escola de Música da Polícia Militar Instrumental. Em 2012, se mudou para São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo/SP, integrou junto ao núcleo teatral: Cia Utilidade Pública, com a peça: Dia Útil. Circulando pela cidade de São Paulo: Teatro Flávio Império, Aldeia Satélite Espaço Cultural, Festival do Livro e Literatura de São Miguel e praças públicas.
Uma das idealizadoras do grupo de performance/cênica/poética PARDOnizadas com a ação Sangue Sujo, criado no ano de 2017. Em 2022, pelo Grupo PARDOnizadas iniciou a perfomance PILARES SESSION é um compilado harmônico inédito que mescla a declamação, o canto e a performance cênica. O trabalho possui como característica central a linguagem da música. Atualmente trabalha como mentora social na ONG Gerando Falcões com o Projeto Decolagem, fazendo acompanhamento com famílias de alta vulnerabilidade, traçando metas e objetivos em busca de uma vida digna.
No ano de 2021, com o grupo PARDOnizdas iniciou o projeto Entre Becos e Vielas, com o apoio e incentivo financeiro da ONG Fundação Tide Setubal, que nasceu da vontade de levar arte, cultura e lazer para a comunidade, com foco nas crianças e adolescentes.
Referências:
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed., 2. reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. (Coleção Milton Santos; 1).
Referências
- SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed., 2. reimpr. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. (Coleção Milton Santos; 1).
