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Inovação Social

Quem forma as lideranças também é transformado por elas

Karla Marques

Casa Hacker

publicado 28 de julho de 2026tempo de leitura ~8 min
Mulher sorridente segura certificado e chocolates ao lado de homem de dreadlocks; ao fundo, TV exibe o slide Mentoria de Quebrada, encerramento.

Da beneficiária à gerente de projetos: uma trajetória construída pelo território

Turma Perifaimpacto 2023

Entre maio e julho, o Hub Cidadania Ativa Quebrada em Movimento realizou mais uma edição da Jornada Formativa, um percurso de oito semanas voltado para lideranças comunitárias, empreendedores de impacto e organizações que já atuam em seus territórios. Hoje, acompanho essa formação como gerente de projetos do Hub. Mas, antes de estar do lado de quem organiza e acompanha a Jornada, eu também estive do outro lado: como participante, buscando transformar propósito em estratégia e atuação em impacto.

Essa experiência me fez olhar para a minha própria trajetória. Percebi que, de muitas formas, minha história representa muito do que acredito ser a essência desse trabalho. Porque antes de ser gerente de projetos, antes das formações, das especializações e dos cargos que ocupei, eu já estava sendo formada pelo território.

Toda trajetória começa muito antes do primeiro cargo

Há algum tempo, ouvi uma pergunta que me fez revisitar minha própria história: “Por que você escolheu trabalhar com desenvolvimento de pessoas? De onde vem esse compromisso com a transformação social?” A resposta não estava nas minhas especializações, nem nos projetos que coordenei ou nas organizações das quais faço parte. Ela estava muito antes de tudo isso. Estava na forma como fui criada.

Na minha família, ninguém falava sobre impacto social, inovação ou empreendedorismo. Esses conceitos vieram depois. O que existia era algo muito mais simples: a disposição de ajudar o próximo sempre que fosse possível, sem esperar reconhecimento, retorno ou qualquer recompensa por isso. Era uma forma de enxergar a vida, baseada na empatia e na compreensão de que uma pequena atitude poderia fazer diferença na trajetória de outra pessoa.

Minha avó, Dona Áurea, acolhia em casa pessoas que vinham da zona rural para realizar exames médicos e não tinham onde ficar. Minhas tias e tios doam sangue regularmente, estavam sempre disponíveis quando alguém precisava de apoio, fosse para fazer um curativo, dormir no hospital ou doar uma cesta básica. Nenhuma dessas atitudes buscava reconhecimento. Eram escolhas que expressavam uma maneira de enxergar o outro: com respeito, empatia e a convicção de que as pessoas podem fortalecer umas às outras. Foi nesse ambiente que aprendi que transformar realidades nunca é um movimento individual.

Minha caminhada nos movimentos sociais e nas iniciativas comunitárias começou há mais de 25 anos. Ainda no início da adolescência, eu já participava de ações comunitárias, tanto no território quanto na escola. Naquele momento, eu não tinha as palavras que tenho hoje para explicar o que estava fazendo. Não falava sobre impacto social, desenvolvimento territorial ou fortalecimento de lideranças. Mas já existia em mim a percepção de que as pessoas podem se organizar, cuidar umas das outras e construir respostas para os desafios que enfrentam.

Essa trajetória ganhou novos caminhos em 2006, quando saí de Vitória da Conquista, na Bahia, para Campinas em São Paulo, a partir de uma oportunidade de atuação como agente de desenvolvimento local e economia solidária. A chegada em Campinas ampliou minha compreensão sobre organização comunitária, geração de renda e fortalecimento de redes. Também me mostrou, de forma ainda mais concreta, o potencial que existe quando pessoas e territórios constroem coletivamente soluções para seus próprios desafios.

Ao longo dessa caminhada, participei de movimentos comunitários, ações voluntárias e iniciativas sociais. Sempre carreguei a crença de que as maiores transformações acontecem quando fortalecemos as pessoas para que elas sejam protagonistas das mudanças que desejam construir. A experiência com a economia solidária trouxe uma nova perspectiva para uma trajetória que já carregava uma dimensão humana e comunitária. Passei a compreender cada vez mais a importância de fortalecer capacidades, criar oportunidades e reconhecer os saberes que já existem nas comunidades.

Palestra para grupo de mulheres sobre saúde mental

Quando o propósito encontrou método

Com o passar dos anos, minha trajetória profissional no mundo corporativo também ampliou esse olhar. A atuação com gestão de pessoas, liderança de equipes, planejamento e organização de processos me ensinou algo importante: boas intenções precisam caminhar junto com estratégia, método e capacidade de execução.

Foi nesse encontro entre a experiência comunitária e o conhecimento técnico que construí minha forma de atuar. Percebi que esses universos não pertenciam a caminhos separados. Pelo contrário. Quando se encontram, tornam o impacto mais consistente e ampliam a capacidade de desenvolver pessoas, projetos e iniciativas de transformação.

Em 2022, ao aprofundar meus estudos em desenvolvimento humano, Programação Neurolinguística e Gestão de Pessoas, passei a refletir sobre uma questão que continua me acompanhando: Como levar ferramentas de autoconhecimento e desenvolvimento para as periferias, onde esse tipo de conhecimento ainda chega de forma limitada?

A resposta veio por meio dos atendimentos terapêuticos e das palestras gratuitas que comecei a realizar. Naquele momento, meu objetivo era compartilhar conhecimentos que, muitas vezes, permanecem distantes das periferias. Eu ainda não compreendia que essa atuação também gerava impacto social. Eu sabia que queria ajudar pessoas a reconhecerem suas potencialidades e compartilhar ferramentas de desenvolvimento, mas ainda não entendia completamente como estruturar esse trabalho para que ele pudesse alcançar mais pessoas e se tornar sustentável.

Foi durante minha participação no programa PerifaImpacto – Edição Negócios de Impacto 2023, da Casa Hacker, que essa percepção mudou. Compreendi que democratizar o acesso ao desenvolvimento humano também é uma forma de promover transformação social. Essa descoberta trouxe uma nova pergunta: Como estruturar esse trabalho para que ele fosse sustentável e alcançasse mais pessoas?

Foi nesse contexto que participei das Trilhas Formativas do Hub Quebrada em Movimento. Passei pelas trilhas de aprendizagem, participei de mentorias, escrevi projetos, submeti uma proposta no Edital Fundo da Quebrada, fui aprovada, executei o projeto e realizei prestações de contas. Cada etapa ampliou meu repertório técnico e fortaleceu minha capacidade de transformar ideias em projetos mais consistentes.

Aprendi a organizar melhor aquilo que eu já fazia. Aprendi a olhar para o meu propósito também a partir da estratégia. Aprendi que uma boa ideia precisa de estrutura para se sustentar e alcançar mais pessoas. Ao mesmo tempo, continuei participando de formações promovidas por diferentes organizações do ecossistema de inovação social de Campinas. Cada experiência acrescentou novos conhecimentos e ampliou minha visão sobre gestão, impacto e articulação em rede.

Karla recebe um certificado do Celso

Minha trajetória profissional no mundo corporativo também passou a dialogar com tudo o que eu aprendia nos territórios. A experiência em gestão de pessoas, planejamento, liderança de equipes e organização de processos passou a se integrar às experiências comunitárias e às formações que eu realizava. Foi justamente essa integração entre diferentes vivências que ampliou minha capacidade de atuar na gestão de projetos sociais.

As experiências que continuaram se conectando

À medida que essa trajetória se consolidava, novas oportunidades surgiram naturalmente. Desde 2024, integro a diretoria financeira do Movimento Rosalina, contribuindo para fortalecer uma organização que impulsiona o empreendedorismo de mulheres negras por meio da formação, da geração de renda e do acompanhamento psicosocioemocional, atuo como conselheira da Ozipa Criativa, Hub de Cidadania Ativa no Parque Oziel, que reconhece a cultura, a participação cidadã e a inovação social como ferramentas fundamentais para o desenvolvimento territorial.

Olho para essas experiências como parte de uma mesma caminhada. Não são capítulos isolados. São diferentes formas de contribuir para que pessoas, coletivos e organizações ampliem sua capacidade de gerar impacto positivo em suas comunidades.

Minha trajetória foi sendo construída a partir desses encontros: entre a experiência comunitária e a gestão; entre o conhecimento técnico e os saberes dos territórios; entre aquilo que aprendi e aquilo que ainda continuo aprendendo.

Curso- Ferramentas praticas para autoconhecimento 2024 Hub Quebrada em Movimento

Hoje, acompanhando a nova turma como gerente de projetos do Hub Cidadania Ativa Quebrada em Movimento e estar nessa posição me faz olhar para a Jornada Formativa de uma maneira diferente, porque eu conheço a experiência de estar do outro lado.

Sei o que significa chegar com uma ideia, um desejo de transformar, uma iniciativa que muitas vezes já existe, mas ainda precisa de ferramentas para se organizar e crescer. Sei também que muitas lideranças não precisam que alguém diga a elas o que fazer. Elas já conhecem profundamente seus territórios, já enfrentam desafios, constroem soluções, mobilizam pessoas e produzem transformações concretas.

O território também transforma quem o transforma

Agora consigo responder à pergunta que deu início a esta reflexão. Meu compromisso com o desenvolvimento de pessoas não nasceu de uma formação acadêmica nem de um cargo de gestão. Ele nasceu das referências que encontrei dentro da minha própria família e foi se fortalecendo ao longo de mais de duas décadas de atuação comunitária, da experiência profissional e das oportunidades de aprendizagem que encontrei em organizações como a Casa Hacker.

Minha trajetória também me ensinou que aprender, aplicar e compartilhar conhecimento fazem parte de um mesmo processo. Eu aprendi nos territórios, aprendi com as pessoas, aprendi nas formações e aprendi com os projetos que deram certo e também com aqueles que precisaram ser refeitos. E hoje continuo aprendendo enquanto acompanho outras pessoas em suas próprias trajetórias.

Programa de mentoria no Hub Quebrada em Movimento 2024

É por isso que acredito tanto nas formações territoriais. Elas não entregam respostas prontas. Não formam lideranças do zero. Elas reconhecem saberes que já existem, fortalecem trajetórias em construção e ampliam a capacidade de pessoas e organizações produzirem as transformações que seus territórios já começaram.

Talvez essa seja uma das maiores aprendizagens da minha própria trajetória: quem forma também é formado. Quem fortalece também é fortalecido. Quem acompanha o desenvolvimento de outras pessoas também continua se transformando nesse processo.

Porque, no fim, transformar uma comunidade nunca é obra de uma única pessoa. É o resultado de muitas histórias que se encontram, aprendem umas com as outras e seguem construindo, coletivamente, novos caminhos.

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