Há alguns anos, trabalhei em projetos open source como o WebCompat, na Mozilla. O WebCompat alertava desenvolvedores no mundo inteiro quando seus sites não seguiam boas práticas de desenvolvimento — ou seja, quando não eram compatíveis nem inclusivos. Também colaborei com o Projeto Fedora. Em todos esses lugares, a pauta de diversidade e inclusão sempre trouxe desafios. Eles podem começar por limitações físicas, como cegueira ou mobilidade reduzida, mas também envolvem idiomas diferentes, fusos horários distintos e, hoje, pessoas neurodivergentes, por exemplo.
Inclusão se constrói nos detalhes
Aqui na Casa Hacker, nos últimos anos, investimos em várias iniciativas de inclusão. Fizemos treinamentos com a equipe para tornar nossas atividades acessíveis a todos — não apenas a quem tem deficiência. Um exemplo simples: numa atividade do Hackerclubes, quando o facilitador fala e também escreve de forma resumida o que acabou de apresentar, isso é um ato inclusivo. Nem todo mundo processa instantaneamente o que ouve, e o texto permite que a pessoa revise o conteúdo durante a aula. São pequenas práticas como essa que fazem o trabalho diário ser inclusivo de verdade, e os detalhes importam muito — de uma rampa para cadeirantes à interpretação em Libras.
Também atualizamos as plataformas que usamos e retiramos aquelas que não ofereciam acessibilidade, inclusive para nossa equipe e para a comunidade de membros da Casa Hacker. Passamos a contratar serviços como audiodescrição e Libras para atividades, comunicação e mídias, e criamos uma política interna: ao entrar na Casa Hacker, cada pessoa é perguntada se precisa de algum recurso de acessibilidade para participar plenamente. Com base nisso, planejamos nossas ações. No Hackerclubes, por exemplo, pessoas neurodivergentes contam com acompanhamento dedicado durante os encontros, integradas à turma.
A novidade: nossa barra de acessibilidade
Agora, quero apresentar uma novidade: nossa barra de acessibilidade. Muitos sites já têm recursos assim, mas descobrimos que podemos entregar muito mais. Desenvolvemos o código da barra e estamos padronizando esses recursos em todas as plataformas da Casa Hacker, inclusive neste site — você a encontra fixa no topo desta página. São recursos de leitura e navegação: alto contraste, tamanho de fonte, fonte amigável para dislexia, régua de leitura, modo foco, cursor ampliado, pausa de animações, alvos de clique maiores, links sublinhados e tradução para Libras com o VLibras, o tradutor oficial mantido pelo governo brasileiro com a Universidade Federal da Paraíba. Os recursos completos estão listados em casahacker.org/acessibilidade.
E fizemos questão de um detalhe que costuma passar batido: a própria barra precisa ser acessível. Ela funciona inteira pelo teclado, tem alvos de toque no tamanho que as diretrizes internacionais de acessibilidade (WCAG) recomendam e contraste medido — porque não faz sentido oferecer inclusão através de uma ferramenta que exclui.
Aberta para qualquer pessoa usar
No nosso manifesto, assumimos o compromisso de tratar tecnologia como direito e como linguagem de poder, não como privilégio de poucos. Esse direito inclui a forma de acessar: uma tecnologia que só funciona para quem enxerga bem, ouve bem e navega rápido não é direito — é barreira. Por isso, com esse compromisso de tornar a internet mais inclusiva, estamos abrindo nossa tecnologia como open source, com licença livre (MIT), para que qualquer pessoa possa preparar seus conteúdos para serem lidos e acessados de forma inclusiva.
O código vive em gitlab.com/casahacker/barra-acessibilidade, com documentação técnica de integração e testes automatizados de acessibilidade. Basta baixar dois arquivos da última versão e servir no seu próprio site — sem depender de serviço de terceiros. E, como todo projeto aberto, ele melhora com quem chega: sugestões, correções e traduções são bem-vindas por lá.
Um site que fala mais línguas
Além da barra, também estamos atentos às pessoas do nosso território que vieram de outros países latinos, como a Venezuela e o Haiti — do Jardim Bassoli ao Jardim Florence, e também no Jardim do Lago. Por isso, traduzimos o site para inglês, espanhol e francês, permitindo que tanto nossos parceiros na América Latina, Europa e Estados Unidos quanto as pessoas do nosso território que vieram de outros países conheçam a Casa Hacker e o que fazemos aqui.
Quando a Casa Hacker nasce, nasce junto a certeza de que as periferias não são um lugar de espera — são um lugar de começo. Acessibilidade é isso na prática: garantir que ninguém fique esperando do lado de fora enquanto o futuro é programado. A barra é mais um desses começos, e agora ela é de todo mundo.
