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Desenvolvimento Institucional

Arranjos multi-institucionais de território: governança compartilhada

Dez frentes que definimos antes de assinar um projeto com outras organizações do território: políticas internas, papéis e responsabilidade jurídica, orçamento, processo decisório, comunicação, guarda do acervo e a proporção entre governança e recurso.

Geraldo Barros

Diretor Executivo · cofundador

publicado 4 de setembro de 2026tempo de leitura ~22 min
Seis pessoas sentadas lado a lado, de perfil, ouvindo com atenção durante uma roda de conversa.

Mudou alguma coisa no jeito como as organizações dos nossos territórios chegam até a gente. Antes o convite mais comum era para participar de uma atividade, ceder um espaço, indicar uma turma. Nos últimos tempos, o convite é outro: vamos construir isso junto. Projeto desenhado a quatro, seis, oito mãos. Orçamento dividido. Prestação de contas compartilhada. Marca de todo mundo no material.

Isso é ótimo. É sinal de que a rede amadureceu e de que existe confiança suficiente para dividir o que é mais difícil de dividir: dinheiro, responsabilidade e crédito.

E também é bem mais difícil do que parece.

Há cerca de dois anos participamos, como organização dinamizadora, da formação da Coalizão pelo Impacto , a iniciativa nacional que apoia organizações que dão suporte direto a empreendedores e negócios de impacto, com o ICE na secretaria executiva. O módulo de Parcerias e Gestão de Ecossistemas, conduzido pela Carol Andrade, cofundadora e senior advisor do Social Good Brasil, colocou nome em uma porção de coisas que a gente já fazia sem nome, e mostrou com clareza onde a gente ainda apanha.

Estamos resgatando aquele material agora, justamente porque o assunto voltou à mesa por conta dos convites que têm chegado. Juntando aquele conteúdo com o que aprendemos na prática ao longo dos anos, resolvi organizar tudo num lugar só. Não como manual, porque a gente não tem autoridade para isso, mas como registro honesto de quem já errou e já acertou nessas dez frentes, e prefere que a próxima organização erre menos.

Parceria, rede, ecossistema: por que a palavra importa

Na formação apareceu uma distinção simples que evita muita frustração:

Nem toda parceria atua num ecossistema estruturado. Mas todo ecossistema estruturado atua em parceria.

Parceria é um acordo entre duas ou mais organizações para se apoiarem mutuamente: complementar competência, recurso ou capilaridade. Ecossistema é outra escala: como o Silvio Meira define, é “o complexo de instituições, organizações e agentes num determinado ambiente e suas inter-relações numa certa unidade de espaço-tempo”. Atuar em ecossistema é bem mais complexo do que atuar em parceria, e confundir os dois é a origem de metade dos problemas.

A confusão custa caro na prática. Um projeto desenhado como parceria bilateral, mas executado num arranjo de seis organizações do território, vai descobrir no meio do caminho que não tem governança para o que está acontecendo. Aí já é tarde: o dinheiro entrou, o cronograma começou, e a conversa sobre quem decide o quê vira negociação sob pressão.

Governança compartilhada, do jeito que a gente entende aqui, é o conjunto de acordos que responde a perguntas bem concretas antes que elas apareçam com urgência:

  • Quem decide o que, e até onde vai a autonomia de cada organização?
  • Quem assina embaixo quando alguém precisa assinar embaixo?
  • O que acontece quando o orçamento precisa mudar?
  • Quem cuida do que ficou pronto depois que o financiamento acabar?

Dito assim parece burocracia. Na prática é o contrário: é o que permite que o projeto sobreviva ao primeiro imprevisto sem que ninguém precise escolher entre a relação e o resultado.

São dez frentes. Vou em cada uma.

1. A governança começa em dez folhas já escritas, não numa folha em branco

O primeiro erro é o mais sedutor: sentar com as organizações parceiras e desenhar a governança do zero, como se o projeto fosse o primeiro compromisso da vida de todo mundo. Não é.

Cada organização que entra num arranjo compartilhado chega com estatuto, regimento interno, política de compras, alçadas de aprovação, órgãos deliberativos, restrições legais e um jeito próprio de decidir. Ignorar isso em nome da agilidade do projeto não é eficiência. É combinar uma coisa que o parceiro não tem como cumprir.

Então o trabalho começa por um mapeamento chato e necessário: como cada instituição decide? Quais são seus órgãos deliberativos? Até onde vai a autonomia de quem senta na mesa do projeto? Que compromissos ela está impedida de assumir por estatuto?

Quando as políticas convergem, é fácil: formaliza o acordo e segue. Quando divergem, e divergem mais do que se imagina, é preciso abrir a divergência explicitamente e construir a conciliação ali, na concepção.

Divergência que não vira acordo na concepção vira conflito na execução, e aí custa dez vezes mais. Na concepção, a conversa é sobre desenho. Na execução, é sobre dinheiro parado, entrega atrasada e relação desgastada.

Respeitar a política interna de cada um não é ficar refém da particularidade de ninguém. É colocar as diferenças na mesa enquanto ainda dá para desenhar em cima delas.

2. Papel sem nome é papel de ninguém

Já escrevi isso a respeito de integridade e vale igual aqui: função que é de todos costuma virar função de ninguém.

O papel de cada organização precisa estar definido desde a concepção e registrado em documento que alguém consiga consultar dois anos depois: ata, memorando de entendimento, termo de acordo. Combinado que não está escrito é lembrança, e lembrança de gente diferente nunca é a mesma.

Três definições não podem faltar:

Quem gere os recursos. Uma organização vai administrar o financeiro, cumprir obrigações fiscais, prestar contas ao financiador e aos demais parceiros, e manter os registros contábeis. A escolha considera capacidade técnica, estrutura administrativa, experiência prévia e reputação, não proximidade nem ordem de chegada.

Como a transparência funciona na prática. Não basta a gestora ser competente. Relatório financeiro periódico com data, documentação financeira aberta para conferência dos demais, reunião de prestação de contas com pauta, informação em formato que todo mundo consiga ler. Transparência que depende de pedir não é transparência. É atendimento.

Quem responde financeira e juridicamente. Essa é a mais delicada, e é a que mais gente empurra com a barriga. Se aparecer questionamento de financiador, processo administrativo ou disputa judicial, alguém vai ter que responder. Essa organização precisa saber exatamente o que está assumindo. E algumas simplesmente não podem assumir, por restrição estatutária, o que é uma informação e não um problema, desde que apareça antes.

Junto disso: profissional dedicado a risco, contrato e salvaguarda jurídica, previsto no orçamento desde o começo. Pode ser jurídico interno da gestora, consultoria externa contratada para o projeto, ou os dois. O que não pode é o custo de assessoria jurídica, seguro e contingência aparecer como surpresa no meio da execução. Governança que não previu esse custo já está exposta a um risco que não precisava correr.

3. O orçamento também precisa prever o custo de mudar o orçamento

Projeto com várias organizações é financeiramente complexo por natureza. Enfrentar isso de frente na concepção é mais barato do que descobrir depois.

Começa pelo tempo. Cada organização precisa de prazo real para analisar o impacto do projeto na própria operação e montar um orçamento que reflita o custo verdadeiro, inclusive o indireto. Despesa administrativa, custo de pessoal, infraestrutura, energia, contabilidade. É justamente o custo indireto que costuma ser subestimado, e é ele que corrói a organização por dentro enquanto o projeto parece estar indo bem.

Depois, especificação. Cada atividade com organização responsável identificada, orçamento alocado, cronograma e indicador de resultado. Atividade sem dono é a principal fonte de conflito em projeto compartilhado , porque quando ela atrasa, todo mundo tem uma explicação e ninguém tem uma responsabilidade.

E aí entra a restrição tripla que a gestão de projetos ensina há décadas: tempo, escopo e recurso não se movem de graça. Não existe ampliar escopo sem mexer em prazo ou dinheiro. Não existe encurtar prazo sem mexer em escopo ou dinheiro. Quem promete as três coisas ao mesmo tempo está apenas adiando uma conversa , e a conversa adiada sempre volta pior.

Por isso o acordo financeiro precisa dizer, antes de precisar:

  • Como se aprova uma alteração orçamentária? Conselho com representante de todas as organizações, ou cada uma remaneja suas próprias rubricas com autonomia? Quem homologa? Em quanto tempo?
  • De quem são os rendimentos financeiros? Se o valor do projeto é fixo e a aplicação rende, esse rendimento fica com cada organização conforme sua participação, é dividido igualmente ou é reinvestido no projeto? E qual instrumento legal sustenta essa escolha? Em geral a resposta passa por aditivo contratual que justifique, por atividade, a alocação desses recursos, e essa é uma conversa que envolve tributarista, não só gestor.
  • O que acontece se faltar recurso? Reduz escopo, estende prazo ou capta mais? Essa decisão não pode ser improvisada no dia em que o problema aparece. Precisa ter critério pactuado antes.

Orçamento que não previu o custo de mudar o orçamento já nasceu vencido.

4. Projeto compartilhado não é projeto sem dono

Tem uma leitura equivocada de “gestão compartilhada” que atrapalha bastante: a de que dividir a governança significa diluir a liderança. É o contrário. Quanto mais organizações na mesa, melhor precisa ser quem coordena.

A liderança de um arranjo compartilhado precisa de três coisas ao mesmo tempo: experiência real em gestão de projetos complexos, capacidade de mediar conflito sem tomar partido, e teimosia suficiente para manter o foco no objetivo.

Mas a habilidade que decide o jogo é comunicação. Quem trabalha com gestão de projetos sabe que a maior parte do tempo é conversa, e em projeto compartilhado essa proporção é ainda maior, porque a liderança fala com a equipe, com a direção de cada organização parceira, com o financiador, com os atores do território e com a comunidade. Cinco públicos, cinco linguagens, uma coerência só.

Isso precisa ser estruturado, não improvisado: canal formal definido, reunião periódica com pauta e registro, relatório de progresso, ata das decisões e, o mais importante, transparência também sobre o que está dando errado. Notícia ruim que chega tarde vira crise. Notícia ruim que chega cedo ainda é problema de gestão.

5. Valor que não vira critério de decisão é decoração

Aqui a gente é bem intransigente. O acordo de valores entre as organizações precisa ir além do clichê. “Compromisso com a transformação social” não é acordo. É frase.

Acordo é isto:

  • O projeto vai impactar pessoas. Vai ter vaga afirmativa? Para quais grupos, com qual percentual, definida como, divulgada onde, preenchida por qual critério?
  • O projeto se compromete com acessibilidade. O que isso significa em item de orçamento? Material em formato acessível, local com acesso garantido, linguagem simples, interpretação em Libras, audiodescrição. Cada um desses tem custo e responsável.
  • Como se mede? Se a gente diz que a equipe será diversa, precisamos conseguir mostrar a composição da equipe. Se dizemos que o resultado beneficia diferentes grupos de forma equitativa, precisamos ter o dado desagregado.

Valor pactuado precisa aparecer em três lugares: no critério de decisão, no indicador de avaliação e na linha do orçamento. Se não aparecer nos três, é decoração.

E tem a pergunta que quase ninguém faz na concepção: e se entrar gente nova no meio do caminho? Novo parceiro chega com qual nível de participação nas decisões? Entra na governança existente ou num arranjo consultivo? Definir isso antes evita dois desfechos ruins: desequilibrar a governança que já funcionava, ou criar ressentimento em quem estava lá desde o começo.

6. O que não pode ser violado precisa estar escrito antes de ser testado

Processo decisório claro, nos dois níveis: no projeto e em cada instituição.

A distinção que mais ajuda é entre decisão estratégica e decisão operacional.

Estratégica é coletiva: objetivo do projeto, alocação de recursos entre frentes, entrada de novo parceiro, alteração orçamentária relevante, mudança na teoria da mudança.

Operacional é delegada: execução da atividade prevista, gestão do dia a dia, contratação de fornecedor dentro da alçada já aprovada.

Sem essa distinção acontece um dos dois extremos: ou tudo vira assembleia e o projeto trava, ou nada vira assembleia e alguém decide sozinho o que não devia.

E junto: quais documentos de transparência precisam estar em dia, com qual periodicidade e disponíveis para quem. Relatório financeiro, ata de reunião, registro de decisão, relatório de progresso. Não é boa prática. É o que sustenta a confiança. Informação compartilhada por rotina produz parceiro seguro; informação compartilhada sob demanda produz parceiro desconfiado. E parceiro desconfiado transforma divergência pequena em conflito grande.

7. Projeto de muitos que se comunica como projeto de um perde os muitos

Comunicação integrada é onde a boa intenção mais tropeça, porque é onde o crédito aparece.

Precisa estar definido desde o começo: o projeto terá identidade visual própria? Como ela se relaciona com as marcas das organizações? Como se dá crédito à contribuição de cada uma, em material impresso, em post, em relatório, em evento? Quem responde pela comunicação do projeto e com qual alçada?

E a comunicação precisa atender públicos que querem coisas diferentes: a comunidade quer saber o que muda na vida dela; o financiador quer saber o que foi entregue e como; o parceiro institucional quer ver seu papel reconhecido; a imprensa quer o que é novo. Estratégias diferentes, mensagem coerente entre si, e a natureza coletiva do projeto visível em todas.

Quando a comunicação apaga a autoria coletiva, ela não está só sendo injusta. Está desmontando a confiança que sustenta o arranjo.

8. Financiamento acaba, domínio expira, site cai. O aprendizado não devia cair junto

Esse é o aprendizado que mais dói, porque a perda é silenciosa e definitiva.

O projeto termina. O site especial é desligado. O domínio expira. A metodologia que levou dois anos para ser construída vira PDF perdido no drive de alguém que já saiu da organização. O banco de dados some. E a próxima iniciativa, três anos depois, começa do zero, repetindo erro que já tinha sido resolvido.

Dá para evitar com uma definição simples feita na concepção: qual organização fica responsável por guardar o acervo e mantê-lo online depois que o projeto acabar : com que recurso, por quanto tempo, sob qual licença.

Isso inclui manutenção do site ou da página, preservação dos materiais, publicação das metodologias e ferramentas em formato acessível e reutilizável, e documentação dos aprendizados, inclusive dos que não deram certo.

Para a Casa Hacker isso é inegociável. Em todo projeto que entramos, brigamos para que o conhecimento gerado continue disponível. Foi por isso que abrimos nossa barra de acessibilidade com licença livre, e é por isso que nossas políticas e nossa governança estão publicadas na íntegra em casahacker.org/movimento. Conhecimento que morre com o projeto é recurso público que virou despesa.

9. Conflito de interesse não é o problema. Conflito de interesse não declarado é

Governança compartilhada se apoia em boa prática de gestão, conformidade e integridade, e isso precisa estar pactuado, não subentendido.

O compromisso central é um só: toda decisão, financeira, estratégica ou operacional, se orienta pelo impacto que o projeto se propôs a gerar no território e na vida das pessoas. Vão surgir conflitos entre o interesse particular de uma organização e o interesse coletivo do projeto. Isso é normal e não é sinal de má-fé. O que precisa estar acordado desde o início é qual prevalece.

E a integridade aqui é bem prática. Se uma organização parceira tem relação comercial com fornecedor que pode ser contratado pelo projeto, isso se declara. Se alguém da equipe tem interesse pessoal numa decisão, isso se declara. Se existe parentesco entre quem decide e quem é contratado, isso se declara.

Declarar não impede nada. Declarar tira a decisão do campo da suspeita e coloca no campo do registro , e é exatamente essa diferença que protege a pessoa honesta.

10. Cada cadeira a mais na governança é uma reunião a mais no calendário de todo mundo

O último aprendizado é o que a gente demorou mais para entender, e talvez seja o mais útil: governança precisa ser proporcional ao recurso disponível e à maturidade de quem está na mesa.

Existe uma vontade generosa de convidar todo mundo para a governança. Ela quase sempre custa caro. Cada participante a mais multiplica canal de comunicação, aumenta o número de reuniões, alonga o tempo de decisão e eleva o custo de coordenação. Em projeto com recurso apertado, esse custo come justamente a parte que deveria virar impacto.

Ser razoável na quantidade não é ser excludente. É reconhecer condição real. Governança enxuta com gente preparada e presente costuma entregar mais do que governança ampla com gente que não tem agenda para se dedicar. Se a intenção é ampliar participação, existem outros formatos: comitê temático, conselho consultivo, escuta periódica com a comunidade. Nem toda voz precisa estar na instância deliberativa para ser ouvida. Precisa é ter um lugar de verdade.

Maturidade também pesa. Parceiro com experiência prévia em arranjo compartilhado lida bem com estrutura mais flexível e mais autonomia. Parceiro que está fazendo isso pela primeira vez precisa de estrutura mais detalhada e acompanhamento mais próximo. Aplicar o mesmo nível de detalhe para os dois é errar duas vezes.

E o outro lado da moeda: cuidado com definição rígida demais na largada de um projeto longo.

O exemplo mais comum é a contratação de fornecedor ou prestador em regime de exclusividade fechada desde o desenho. Parece organização; vira algema. Se em dois anos a estratégia evoluir, a teoria da mudança for revisada ou um novo parceiro chegar com capacidade que ninguém tinha, a obrigação de manter o arranjo original limita a adaptação, e o preço disso é impacto que deixou de acontecer.

Fornecedor amarrado por exclusividade num projeto de três anos é uma aposta de que nada vai mudar em três anos. Nunca vi essa aposta ganhar.

O equilíbrio é este: definição clara o suficiente para orientar a ação, aberta o suficiente para permitir ajuste quando a realidade mudar. Escreva o critério, não o nome do fornecedor. Escreva o processo de decisão, não a decisão.

O que a teoria já sabia antes da gente

Vale dizer com honestidade: não inventamos nada. Atravessamos, apanhando e no nosso território, um caminho que gente muito boa já tinha mapeado.

Elinor Ostrom ganhou o Nobel de Economia em 2009 mostrando que comunidades conseguem gerir recursos compartilhados sem privatizar nem estatizar, desde que construam limite claro de quem está dentro, regra que cabe na condição local, participação de quem é afetado, monitoramento, sanção proporcional, instância barata para resolver conflito e governança aninhada em vários níveis. Publicado em 1990, e é item por item o que a gente foi descobrindo sozinho. Os recursos de um projeto de território são exatamente desse tipo: conhecimento, confiança, capital social, infraestrutura compartilhada.

John Kania e Mark Kramer deram nome, em 2011, ao problema: o impacto isolado, cada organização buscando solução própria para questão que é interconectada. A alternativa exige agenda comum, medição compartilhada, atividades que se reforçam, comunicação contínua e uma estrutura dedicada à coordenação. Essa última é a que mais gente tenta economizar, e é a que menos dá.

O resto do arcabouço explica o porquê. Granovetter mostrou que são os laços fracos, a conexão entre grupos diferentes, que fazem informação e oportunidade circularem; Putnam ligou capital social ao desempenho das instituições locais; e Bourdieu lembrou que acesso a rede privilegiada é um dos mecanismos pelos quais a elite reproduz vantagem, o que faz de construir rede na periferia enfrentamento de desigualdade, não networking. Donella Meadows colocou regra e fluxo de informação entre os pontos de alavancagem mais potentes de um sistema, que é exatamente onde a governança mora. E Sen, Sachs, Favareto, Singer, Fraser e Boaventura de Sousa Santos sustentam a parte que não é técnica: desenvolvimento é expansão de liberdades, depende de arranjo institucional capaz de furar a fragmentação setorial, e justiça não é só redistribuição: é também reconhecimento e representação.

Na formação da Coalizão, o que amarrou tudo isso veio de Jeremy Heimans e Henry Timms: velho poder é posse e controle de informação e recurso; novo poder é posse e controle compartilhados entre pessoas em rede. Não são excludentes: são espectros. Governança em rede, transparência, mentalidade de movimento, cultura hacker: a lista descreve, ponto a ponto, o que a Casa Hacker tenta ser desde 2018.

Tudo isso converge numa frase que a gente poderia ter economizado dez anos para aprender: problema social complexo não se resolve sozinho, nem de fora, nem de cima.

Nossos próximos passos

Três coisas estão na nossa fila para os próximos meses.

Transformar isto num instrumento, não num texto. Estamos documentando esses aprendizados e transformando parte deles em instrumento de trabalho aqui dentro: checklist de mapeamento de políticas internas, matriz de papéis e alçadas, e a lista de perguntas financeiras que precisam de resposta antes de qualquer assinatura. É trabalho em curso, e o que a gente aprender usando volta para cá.

Levar essas verificações para dentro do sistema. O Cockpit, nossa tecnologia própria de gestão e integridade, já roda verificação diária de conformidade sobre a execução dos nossos programas. A próxima frente é estender isso ao arranjo compartilhado: atividade sem organização responsável, documento de transparência vencido, alteração orçamentária sem registro de aprovação. Regra que mora no processo funciona; regra que depende de alguém lembrar, não.

Publicar o acervo, sempre. Vamos formalizar como cláusula padrão nas nossas parcerias a definição de quem guarda o acervo e por quanto tempo, com licença aberta como preferência declarada. É mais fácil combinar isso na primeira reunião do que na última.

Por que isso tem tudo a ver com a nossa missão

O que eu diria para quem está começando um arranjo compartilhado agora é que governança não é a parte chata que atrasa o projeto. É a parte que faz o projeto chegar inteiro no fim, com a relação preservada, o dinheiro explicado e o aprendizado guardado.

E que quase tudo que dá errado depois já estava dando errado na concepção, só que em silêncio.

No nosso manifesto assumimos o compromisso de tratar tecnologia como direito e como linguagem de poder, e não como privilégio de poucos. Governança compartilhada é esse mesmo compromisso aplicado à forma de trabalhar: decisão também é uma linguagem de poder, e quando ela fica concentrada numa organização só, o território continua sendo objeto de projeto em vez de sujeito de projeto.

As organizações dos nossos territórios não estão nos procurando para serem executoras de uma ideia que veio pronta. Estão procurando para construir junto. Isso muda o que a gente precisa saber fazer, e este texto é a nossa tentativa de fazer bem feito.

Quando a Casa Hacker nasce, nasce junto a certeza de que as periferias não são um lugar de espera — são um lugar de começo. E lugar de começo se governa junto.

Referências

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Como citar esta publicação

Se você usar este texto em trabalho acadêmico, jornalístico ou em outra publicação, peço a gentileza de incluir a citação completa:

BARROS, Geraldo. Arranjos multi-institucionais de território: governança compartilhada. Campinas: Associação Casa Hacker, 2026. Disponível em: https://casahacker.org/publicacoes/arranjos-multi-institucionais-de-territorio-governanca-compartilhada/. Acesso em: 22 out. 2026.

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