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Inovação Social

Os dados são o novo petróleo. Mas quem tem a chave do cofre?

Como o monitoramento de impacto pode se tornar uma ferramenta de autonomia para os territórios

Marcelo Oliveira

Gerente de Projetos

publicado 29 de setembro de 2026tempo de leitura ~8 min
Participantes de uma atividade dos Hubs de Cidadania Ativa reunidos em torno de uma mesa enquanto uma facilitadora conduz a atividade. O grupo está em um espaço de formação, com materiais de trabalho, notebooks e uma biblioteca ao fundo.

“Mas pra que vocês querem esses dados?”

Essa é uma pergunta que escuto com frequência quando participo de um mapeamento, quando conversamos com alguém de um território ou quando precisamos coletar informações para prestar contas a uma financiadora ou patrocinadora de um projeto de impacto social. E é uma pergunta legítima. Quem está entregando uma informação tem o direito de saber por que ela está sendo solicitada, como será utilizada e o que ela pode produzir.

O que tenho percebido, depois de alguns anos trabalhando com gestão de projetos em contextos de alta complexidade, é que muitas vezes essa pergunta vem acompanhada de uma desconfiança em relação ao próprio processo de monitoramento. Como se coletar dados fosse apenas mais uma exigência burocrática de quem está distante do território e precisa preencher uma planilha para justificar um investimento.

Hoje, quando alguém me pergunta “pra que vocês querem esses dados?”, eu penso também em outra pergunta: quem tem o poder de produzir, interpretar e usar os dados sobre um território?

O que estamos perguntando quando coletamos dados?

Quando falamos em dados dentro dos projetos sociais, talvez a primeira imagem que venha à cabeça seja a de grandes bancos de informações, gráficos complicados ou alguma inteligência artificial analisando milhares de registros. Mas, na prática, muitas vezes estamos falando de coisas bastante simples. Quantas atividades foram realizadas? Quantas pessoas participaram? Qual a idade dessas pessoas? Como elas se identificam? De qual território vieram?

Se estamos falando de uma atividade formativa, outras perguntas aparecem. Como essas pessoas chegaram à atividade em relação aos temas que seriam trabalhados? O que elas já sabiam? O que aprenderam? Como saíram da atividade? Conseguem aplicar aquele conteúdo na própria realidade? Conseguem compartilhar esse conhecimento com outras pessoas? Conseguem adaptar aquilo que aprenderam e fazer do seu próprio jeito?

Para mim, essa última pergunta é especialmente importante. Uma formação não deveria terminar quando a pessoa consegue repetir aquilo que foi ensinado. Existe um momento muito mais interessante quando ela consegue pegar aquele conhecimento, desmontá-lo, adaptá-lo e utilizá-lo para responder às próprias necessidades e às causas que considera prioritárias.

Se a atividade é cultural, as perguntas também mudam. Essa pessoa já participou de algo parecido no território? Como chegou até aquela atividade? O que encontrou? Como saiu depois de assistir a uma peça de teatro, participar de um show ou acompanhar uma batalha de rima?

Por trás de cada uma dessas perguntas existe uma tentativa de entender algo bastante simples: a experiência que estamos oferecendo está fazendo sentido para quem deveria ser beneficiado por ela?

Participantes de uma atividade dos Hubs de Cidadania Ativa conversam e acompanham uma dinâmica coletiva em torno de uma mesa. Ao fundo, uma faixa com a identidade visual da atividade ocupa parte da parede. Participantes de uma atividade dos Hubs de Cidadania Ativa conversam e acompanham uma dinâmica coletiva em torno de uma mesa.

Monitorar também é cuidar

Foi trabalhando com projetos que comecei a mudar minha própria relação com os dados. Durante muito tempo, monitoramento pode parecer sinônimo de controle. Indicadores, metas, formulários, listas de presença, relatórios e evidências podem facilmente ser percebidos como uma camada burocrática entre quem executa um projeto e quem financia.

Mas existe outra possibilidade. Monitorar também é cuidar.

Se poucas pessoas estão participando de uma atividade, precisamos entender o motivo. Talvez o horário não funcione. Talvez o transporte seja inseguro ou caro. Talvez a comunicação não esteja chegando. Talvez o conteúdo não esteja dialogando com aquela realidade. Se uma formação apresenta um resultado abaixo do esperado, talvez o problema não esteja nas pessoas que participaram. Talvez a metodologia precise ser revista. Se alguém abandona uma jornada no meio do caminho, talvez exista uma história ali que precisamos escutar antes de simplesmente registrar aquela pessoa como uma desistência.

Os dados podem nos ajudar a enxergar essas coisas. E, quando conseguimos enxergá-las, podemos tomar decisões melhores.

Por isso, recurso não é apenas dinheiro. Recurso também é tecnologia, conhecimento, rede de apoio, alimentação, transporte seguro, tempo, acesso e cuidado. Quando monitoramos um projeto olhando para todas essas dimensões, deixamos de perguntar apenas se a atividade aconteceu e começamos a perguntar o que foi necessário para que aquela atividade pudesse acontecer da melhor maneira possível para as pessoas envolvidas.

Formação e monitoramento nos Hubs

Recentemente, as equipes dos Hubs de Cidadania Ativa passaram por formações em Gestão Ágil de Projetos e em Monitoramento de Impacto Socioambiental. Para mim, existe algo muito importante nessa experiência que vai além da certificação ou da metodologia aprendida. Hoje temos equipes que atuam em três territórios periféricos e que passaram a dominar ferramentas e conhecimentos que muitas vezes ficam concentrados em organizações, consultorias, instituições financiadoras e equipes especializadas em gestão.

Participantes de diferentes idades reunidos durante uma atividade formativa dos Hubs de Cidadania Ativa. Algumas pessoas seguram cartazes com post-its coloridos organizados a partir de uma dinâmica de construção coletiva. Participantes de diferentes idades reunidos durante uma atividade formativa dos Hubs de Cidadania Ativa, em uma dinâmica de construção coletiva com post-its.

Dados também podem ser uma ferramenta de autonomia

Isso muda alguma coisa.

Porque não basta que uma organização saiba produzir um relatório para uma financiadora. Não basta que quem financia saiba interpretar os indicadores apresentados por uma organização. As pessoas que estão nos territórios também precisam poder olhar para esses dados, entender o que eles dizem e, principalmente, utilizá-los para tomar decisões.

Quando uma liderança consegue olhar para os dados de sua própria atuação e perceber que determinada estratégia está funcionando, que outra precisa ser modificada ou que uma demanda está crescendo no território, aquele dado deixa de ser apenas uma exigência de prestação de contas. Ele passa a ser uma ferramenta de autonomia.

Participantes de uma formação dos Hubs de Cidadania Ativa trabalham em grupo com notebooks, enquanto uma facilitadora conduz a atividade. Ao fundo, há um quadro com anotações e materiais utilizados durante a dinâmica. Participantes de uma formação dos Hubs de Cidadania Ativa trabalham em grupo com notebooks durante uma atividade conduzida por uma facilitadora.

E talvez seja aí que exista uma das maiores potências do monitoramento de impacto. O conhecimento sobre o que está acontecendo em um território não deveria circular apenas de baixo para cima, em forma de relatório, para que outra pessoa possa decidir o que fazer com ele. Esse conhecimento também precisa voltar para o território e servir para quem está construindo as soluções todos os dias.

Quem produz, interpreta e usa os dados?

Eu sei que os dados são o novo petróleo. A frase já foi repetida tantas vezes que quase virou clichê. Mas existe uma pergunta que continua me incomodando: quem serão os detentores desse petróleo?

Porque produzir dados não significa necessariamente ter poder sobre eles. Podemos participar de uma pesquisa e nunca saber o que foi feito com as respostas. Podemos preencher dezenas de formulários e nunca conhecer os resultados. Podemos fornecer informações sobre nosso território e depois descobrir que decisões importantes foram tomadas a partir delas sem que ninguém tenha voltado para conversar conosco.

É por isso que, quando penso em dados no contexto de projetos de impacto social, a pergunta que mais me interessa não é apenas quanto conseguimos coletar. É quem produz esses dados, quem decide quais informações são importantes, quem pode acessá-las, quem consegue interpretá-las e quem transforma essas informações em decisão. E, principalmente, quem fica de fora quando essas decisões são tomadas?

Democratizar o acesso aos dados

Depois de alguns anos trabalhando com gestão de projetos em contextos de alta complexidade, aprendi que os dados podem ser uma chave. Eles ajudam a demonstrar que uma demanda existe, a evidenciar que uma estratégia funcionou, a identificar aquilo que precisa ser corrigido, a comunicar resultados, a defender investimentos e a disputar prioridades. Em muitos contextos, eles também ajudam a colocar territórios que historicamente foram objeto de decisões na posição de sujeitos dessas decisões.

Mas uma chave só produz autonomia quando podemos segurá-la.

Por isso, acredito que democratizar o acesso aos dados precisa caminhar junto com a democratização das ferramentas para produzi-los, interpretá-los e utilizá-los. Não se trata de transformar todo mundo em especialista em indicadores. Trata-se de garantir que mais pessoas tenham condições de compreender as informações que dizem respeito às suas próprias vidas e de utilizá-las para construir as decisões que afetam seus territórios.

E o que nós podemos fazer com essa informação?

A pergunta “pra que vocês querem esses dados?” continua sendo legítima. Talvez a resposta mais interessante seja justamente aquela que permite devolver a pergunta para quem está produzindo o dado: e o que nós podemos fazer com essa informação?

Eu acordo e durmo na periferia. Dou um rolê pelo mundo e volto. É desse lugar que continuo trabalhando com gestão de projetos, tecnologia, impacto e participação.

E talvez a pergunta que mais me acompanha hoje seja menos sobre o tamanho desse novo petróleo e mais sobre quem terá acesso à chave do cofre.

Quem está garantindo que mais de nós possam ocupar essas cadeiras e participar das decisões sobre os problemas e as soluções que, no final do dia, atingem principalmente a nós?

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Como citar esta publicação

Se você usar este texto em trabalho acadêmico, jornalístico ou em outra publicação, peço a gentileza de incluir a citação completa:

OLIVEIRA, Marcelo. Os dados são o novo petróleo. Mas quem tem a chave do cofre?: Como o monitoramento de impacto pode se tornar uma ferramenta de autonomia para os territórios. Campinas: Associação Casa Hacker, 2026. Disponível em: https://casahacker.org/publicacoes/os-dados-sao-o-novo-petroleo-mas-quem-tem-a-chave-do-cofre/. Acesso em: 9 out. 2026.

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